sábado, 16 de setembro de 2017

O Apelo da Missa em Latim.

Por Kenneth J. Wolfe
AO ENTRAR na igreja 40 anos atrás neste primeiro domingo do Advento, muitos católicos romanos talvez tenham se indagado onde estavam. O sacerdote não somente falava em inglês ao invés de latim, mas também estava voltado para os fiéis e não para o sacrário; os leigos assumiam os deveres anteriormente reservados aos sacerdotes; a música popular enchia o ar. As grandes mudanças do Vaticano II haviam chegado em casa.
Tudo isso foi uma ruptura radical da Missa Tradicional em Latim, codificada no 16° século do Concílio de Trento. Durante séculos a Missa servia como um sacrifício estruturado com diretrizes, chamadas “rubricas” que não eram opcionais. É assim que a coisa é feita, dizia o livro. Tão recentemente quanto 1947, o Papa Pio XII havia emitido uma encíclica sobre liturgia que zombava da modernização; Ele dizia que a idéia de mudanças à Missa Tradicional em Latim lhe “afligia dolorosamente”.
Paradoxalmente, entretanto, foi o próprio Pio [XII] o grande responsável pelas mudanças significativas de 1969. Foi ele que nomeou o arquiteto chefe da Missa nova, Aníbal Bugnini, para a comissão de liturgia do Vaticano, em 1948.
Bugnini nasceu em 1912 e foi ordenado sacerdote vicentino em 1936. Embora Bugnini mal tivesse uma década de trabalho em paróquia, Pio XII o constituiu secretário para a Comissão da Reforma Litúrgica. Nos anos 1950, Bugnini conduziu uma grande revisão das liturgias da Semana Santa. Consequentemente, na Sexta-Feira Santa de 1955, pela primeira vez as assembléias se uniram ao sacerdote na recitação do Pai Nosso, e o sacerdote se voltou para a assembléia durante alguma parte da liturgia.
O papa seguinte, João XXIII, nomeou Bugnini secretário para a Comissão Preparatória para a Liturgia do Vaticano II, cargo no qual ele trabalhou com clérigos católicos e, surpreendentemente, alguns ministros protestantes nas reformas litúrgicas. Em 1962 ele escreveu qual viria a ser a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o documento que deu a forma da Missa nova.
Muitas das reformas de Bugnini objetivaram agradar os não católicos, e foram feitas alterações imitando cultos protestantes, incluindo a colocação de altares virados para o povo, em vez de um sacrifício em direção ao oriente litúrgico. Como ele afirmou, “precisamos tirar de nossa… liturgia católica tudo que possa constituir a sombra de uma pedra de tropeço para os nossos irmãos separados, ou seja, para os protestantes.” (Paradoxalmente, os anglicanos que se unirão à Igreja Católica em razão da mão estendida do papa atual usarão a liturgia que sempre apresenta o sacerdote voltado na mesma direção da assembléia).
Como foi que Bugnini foi capaz de fazer mudanças tão avassaladoras? Em parte porque nenhum dos papas a quem ele serviu eram liturgistas. Bugnini modificou tantas coisas que o sucessor de João, Paulo VI, algumas vezes, não sabia das últimas diretrizes. Certa vez o papa questionou as vestes que sua equipe lhe havia designado, dizendo que elas eram da cor errada, somente para ouvir que ele havia eliminado a celebração de Pentecostes com duração de uma semana e que não podia vestir os respectivos trajes vermelhos para a Missa. O mestre de cerimônias do papa à época assistiu Paulo VI se debulhar em lágrimas.
Bugnini caiu da graça nos anos 70. Rumores se espalharam na imprensa italiana de que ele era maçom, que, caso seja verdade,  teria merecido a excomunhão. O Vaticano nunca negou as queixas, e em 1976 Bugnini, que naquela época era um arcebispo, foi exilado para um cargo formal no Irã. Ele faleceu no esquecimento, em 1982.
Mas seu legado sobreviveu. O Papa João Paulo II continuou as liberalizações da Missa, permitindo que mulheres atuassem no lugar de acólitos e permitiu que homens e mulheres não ordenados distribuíssem a comunhão nas mãos de fiéis de pé. Mesmo organizações conservadores como o Opus Dei adotaram as reformas de liturgia liberal.
Porém, Bugnini poderá ter finalmente encontrado seu antagonista à altura em Bento XVI, ele mesmo um renomado liturgista que não é fã dos últimos 40 anos de alterações. Cantar em latim, vestir trajes antigos e distribuir a comunhão somente nas línguas (em vez das mãos) de católicos ajoelhados, lentamente Bento reverteu as inovações de seus predecessores. E a Missa em Latim está de volta, pelo menos, de maneira limitada, em locais como Arlington, Va., onde uma em cada cinco paróquias oferecem a liturgia antiga.
Bento compreende que seus jovens padres e seminaristas – a maioria nascida depois do Vaticano II – estão ajudando a conduzir uma contra-revolução. Eles apreciam a beleza da Missa solene e seu respectivo canto, incenso e cerimônia.  Sacerdotes de batina e freiras de hábito podem ser vistas novamente; sociedades tradicionalistas como o Instituto Cristo Rei estão se expandindo.
No início desta década, Bento (então Cardeal Joseph Ratzinger) escreveu: “O fato do sacerdote se voltar para as pessoas fez com que a comunidade se transformasse num círculo fechado. Em sua forma externa, ela não mais se abre para o que está acima, mas está fechada em si mesma.” Ele estava certo: 40 anos de Missa nova trouxeram o caos e a banalidade no sinal mais visível e externo da igreja. Bento XVI quer um retorno à ordem e ao sentido. Assim, ao que parece, a próxima geração de católicos faz a mesma coisa.
Kenneth J. Wolfe escreve com freqüência para publicações católicas romanas tradicionalistas

terça-feira, 12 de setembro de 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cardeal Ratzinger: "Quem rejeita a Missa Tradicional rejeita o passado da Igreja"

Hoje é posto numa lista negra quem defende a continuação dessa liturgia (tradicional) ou participa directamente numa celebração desta natureza. Existe tolerância para tudo, excepto para esse assunto. Na história da Igreja nunca aconteceu nada deste género; assim é desprezado todo o passado da Igreja. Como se pode confiar no seu presente se coisas estão assim?

Não entendo também, sendo franco, por quê tanta submissão, da parte de muitos irmãos bispos, nos embates desta intolerância. Isso parece ser uma homenagem necessária ao espírito dos tempos, que parece contrastar, sem um motivo compreensível, com o processo da necessária reconciliação dentro da Igreja.

Hoje o latim na Missa parece-nos quase um pecado. Se nem sequer nas grandes liturgias romanas se pode cantar o 'Kyrie' e o 'Sanctus' e se ninguém sabe sequer o que significa o 'Gloria', verifica-se um empobrecimento cultural e a perda de elementos comuns.

Cardeal Joseph Ratzinger in 'Deus e o mundo' (2001) 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Oração a São Miguel

São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate.
Cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio.
Subjugue-o Deus instantemente o pedimos e vós príncipe da milícia celeste, pelos divinos poderes, precipitai no inferno a satanás e a outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas.
"Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz [...] Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso ? Confiamo-vos um Nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo" (Papa Paulo VI. Discurso em 29 de Junho de 1972).
A PÁTRIA E O POVO
                   Dom Fernando Arêas Rifan*                
Amanhã, dia da Pátria, é dia de cultivarmos a virtude do patriotismo, dever e amor para com o nosso país, incluído no quarto Mandamento da Lei de Deus. Jesus, nosso divino modelo, amava tanto sua pátria, que chorou sobre sua capital, Jerusalém, ao prever os castigos que sobre ela viriam, consequência da sua infidelidade aos dons de Deus. É tempo oportuno, pois, para refletirmos sobre a nação, na qual vivemos e da qual esperamos o nosso bem comum. Será que também não devemos chorar sobre nossa pátria amada, ao vermos, na política, tanta corrupção, falta de honestidade, ética, honradez, com total desprezo das virtudes humanas e cristãs, dos pequenos e dos grandes?  E, como se diz, o povo tem o governo que merece, não será sobre o povo brasileiro que devemos chorar?
        
“Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita... Ninguém crê na honestidade dos homens públicos... A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte, o país está perdido! Algum opositor do atual governo? Não!”(Eça de Queirós, ano 1871). 
         
Segundo Aristóteles, “o homem é por natureza um animal político, destinado a viver em sociedade” (Política, I, 1,9). Política vem do grego pólis, que significa cidade. E, continua Aristóteles, “toda a cidade é evidentemente uma associação, e toda a associação só se forma para algum bem, dado que os homens, sejam eles quais forem, tudo fazem para o fim do que lhes parece ser bom”. E Santo Tomás de Aquino cunhou o termo bem comum, ou bem público, que é o bem de toda a sociedade, dando-o como finalidade do Estado. “A comunidade política existe... em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. O bem comum compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et Spes, 74). Daí se conclui que a cidade – o Estado - exige um governo que a dirija para o bem comum. Não se pode separar a política da direção para o bem comum. Procurar o bem próprio na política é um contrassenso. 
        
Como cristãos, nós sabemos que a base da moral e da ética é a lei de Deus, natural e positiva, traduzida na conduta pelo que se chama o santo temor de Deus ou a consciência reta e timorata. Uma vez perdido o santo temor de Deus, perde-se a retidão da consciência, que passa a ser regida pelas paixões. Uma vez abandonados os valores morais e os limites éticos, a sociedade fica ao sabor das paixões desordenadas do egoísmo, da ambição e da cobiça.

            *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

terça-feira, 5 de setembro de 2017

31 AGOSTO, 2017

Banheiro unissex: a PUC-SP é pioneira!

Por Edson Luiz Sampel 
FratresInUnum.com, 1º de setembro de 2017 – É fácil compreender o porquê da existência de banheiros masculinos e banheiros femininos. Quer-se preservar o pudor. Fedor é tudo que se faz no banheiro, porque nesse recinto urinamos e evacuamos. Qual é a graça de um banheiro? Nenhuma. Nele adentramos por necessidade fisiológica e, aliviados, escapulimos o quanto antes. O banheiro unissex, montado em uma “universidade católica” (pioneirismo da PUC-SP), tem que objetivo? Fraternal compartilhamento de odores dos moços e das moças? Que horror!
Na verdade, o real motivo dessa novidade da PUC-SP é atender a certos alunos que ainda não tinham um banheiro próprio: transexuais, etc. Agora têm! A propósito, na reportagem do Jornal Nacional (29/8/2017), que deu essa “grande notícia”, entrevistou-se um rapaz, que afirmou que se sentia constrangido em ter de se pentear e retocar a maquiagem no banheiro masculino.
Com a palavra sua eminência, o arcebispo de São Paulo e grão-chanceler da PUC-SP! Gostaria de saber se essa novidade, banheiro unissex, é compatível com a moral cristã, vale dizer: no banheiro unissex preserva-se o pudor?
Edson Luiz Sampel
Doutor em Direito Canônico e membro da Sociedade Brasileira de Canonistas (SBC)  
3 SETEMBRO, 2017

Esta é a paz da Igreja.

E sim, peçamos a paz, tal como é compreendida e desejada pelos filhos de Deus; uma paz digna deste nome, que a Sagrada Escritura de modo algum separa da Verdade, da Justiça e da Graça; esta é a paz da Igreja: o tranquilo cumprimento da lei cristã, o pacífico desenvolvimento das obras da Fé e da Caridade, a afirmação pública da verdade e dos preceitos do Evangelho, a conformidade das leis e instituições humanas com a doutrina e o ensinamento moral de Jesus Cristo, a contínua resistência ao Príncipe das Trevas e a todos aqueles que propagam as suas perversas máximas.
Dom Giuseppe Melchiorre Sarto, então bispo de Mântua — futuro São Pio X, alocução de 3 de setembro de 1889. Citado em Dal-Gal, Pie X, apud Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, p.297 – Tradução: Fratres in Unum.com
*Publicado originalmente na festa de São Pio X, 3 de setembro de 2012
LITURGIA . O CONTRA-RELATÓRIO DO CARDEAL SARAH
30 Agosto 2017

Claramente não é obra sua. Fazemos referência ao discurso que o Papa Francisco leu, no dia 25 de agosto, aos participantes da semana anual do Centro de Ação Litúrgica italiano. Um discurso cheio de referências históricas, de citações doutas com suas correspondentes notas, sobre uma matéria que ele nunca dominou.

A reportagem é de 
Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 29-08-2017. A tradução é do Cepat.

No entanto, é possível captar silêncios e palavras que refletem muito bem seu pensamento. O que mais deu o que falar foi esta declaração solene que fez a propósito da reforma litúrgica posta em marcha pelo 
Concílio Vaticano II: “Podemos afirmar com segurança e autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”.

Tal declaração foi interpretada pela maioria como uma ordem do Papa 
Francisco para deter o suposto retrocesso iniciado por Bento XVI, com o motu proprio Summorum pontificum, de 2007, que restituía plena cidadania à forma pré-conciliar da missa em rito romano, permitindo sua livre celebração como segunda forma “extraordinária” do mesmo rito.

Efetivamente, no longo discurso lido pelo Papa 
Francisco, são citados em abundância Pio XPio XII e Paulo VI. Mas, ao contrário, nenhuma só referência a Bento XVI, grande estudioso da liturgia, ou a seu motu proprio, apesar de neste verão ter se completado, precisamente, o décimo aniversário de sua publicação.

Muito marginal é também a referência às enormes degenerações na qual caiu, infelizmente, a reforma litúrgica pós-conciliar, superficialmente denunciadas como “recepções parciais e práxis que a desfiguram”.

Silêncio total também sobre o cardeal 
Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, e sobretudo a respeito de suas boicotadas batalhas em favor de uma “reforma da reforma”, que restitua à liturgia latina sua autêntica natureza.
Na sequência, o que publicamos é, de fato, o contra-relatório acerca do estado da liturgia na 
Igreja, que o cardeal Sarah publicou neste mesmo verão, alguns dias antes do discurso do Papa Francisco. Um contra-relatório centrado justamente em Bento XVIe no motu proprio Summorum pontificum.
Seu texto na íntegra pode ser lido em francês, no número de julho-agosto da publicação mensal católica 
La Nef.
Na continuidade, reproduzimos a tradução de algumas passagens.

Nela, o cardeal emite um objetivo futuro de grande importância: um rito romano unificado que una o melhor dos dois ritos pré-conciliar e pós-conciliar.

Naturalmente, não faltam referências a temas particularmente sensíveis para o cardeal 
Sarah: o silêncio e a oração dirigida ad orientem.

Contudo, também aborda o tema do abandono da fórmula “
reforma da reforma”, rejeitada pelo próprio Papa Francisco e que se converteu em inservível. Em seu lugar, o cardeal Sarah prefere falar de “reconciliação litúrgica”, no sentido de uma liturgia reconciliada “consigo mesma, com seu ser profundo”.

Uma liturgia que saiba, efetivamente, acumular as “duas formas do mesmo rito” autorizadas pelo Papa 
Bento, “em um enriquecimento recíproco”.
Eis as reflexões do cardeal Robert Sarah
Por uma reconciliação litúrgica
“A liturgia da Igreja foi a atividade central de minha vida, converteu-se no centro de meu trabalho teológico”, afirma Bento XVI. Suas homilias continuarão sendo documentos insuperáveis, durante gerações. Contudo, é necessário também sublinhar a grande importância do motu proprio Summorum pontificum. Longe de se referir somente à questão jurídica do estatuto do antigo missal romano, o motu proprio delineia a questão da própria essência da liturgia e seu lugar na Igreja.

O que está em discussão é o lugar de 
Deus, o primado de Deus. Como ressalta o “Papa da liturgia”: “A verdadeira renovação da liturgia é a condição fundamental para a renovação da Igreja”. O motu proprio é um documento magisterial capital acerca do significado profundo da liturgia e, em consequência, de toda a vida da Igreja. Dez anos após sua publicação, é necessário fazer um balanço: realizamos estes ensinamentos? Nós os compreendemos em profundidade?

Estou intimamente convencido que ainda não foram descobertas todas as implicações práticas deste ensinamento... Quero apresentar, aqui, algumas de suas consequências.
Para um novo rito comum
Dado que há uma continuidade e unidade profundas entre as duas formas de rito romano, então, necessariamente as duas formas devem se iluminar e se enriquecer reciprocamente. É prioritário que, com a ajuda do Espírito Santo, examinemos, na oração e no estudo, como voltar a um rito comum reformado, sempre com a finalidade de uma reconciliação dentro da Igreja.

Seria belo que aqueles que utilizam o missal antigo observem os critérios essenciais da constituição sobre a sagrada liturgia do 
Concílio. É indispensável que estas celebrações integrem uma justa concepção da participatio actuosa dos fiéis presentes (SC 30). A proclamação da leitura deve poder ser compreendida pelo povo (SC 36). Do mesmo modo, os fiéis devem poder responder ao celebrante e não se limitar a ser espectadores alheios e mudos (SC 48). Por último, o Concílio faz uma convocação a uma nobre simplicidade do cerimonial, sem repetições inúteis (SC 50).

Caberá à comissão pontifícia 
Ecclesia Dei proceder em tal questão com prudência e de maneira orgânica. Pode-se desejar, ali onde for possível, e se as comunidades requererem, uma harmonização dos calendários litúrgicos. É necessário estudar os caminhos para uma convergência dos lecionários.
O primado de Deus
As duas formas litúrgicas fazem parte da mesma lex orandi. O que é esta lei fundamental da liturgia? Permitam-me citar, novamente, ao Papa Bento: “A má interpretação da reforma litúrgica que foi difundida durante muito tempo no seio da Igreja católicainduziu, cada vez mais, a colocar em primeiro lugar o aspecto da instrução, e o de nossa atividade e criatividade. O ‘fazer’ do homem provocou quase o esquecimento da presença de Deus. A existência da Igreja toma vida da celebração correta da liturgia. A Igrejaestá em perigo quando o primado de Deus já não aparece na liturgia e, como consequência, na vida. A causa mais profunda da crise que tem perturbado a Igreja, encontramos na obscuridade da prioridade de Deus na liturgia”.

Eis aqui, portanto, o que a forma ordinária deve voltar a aprender em primeiro lugar: o primado de 
Deus.

Permitam-me expressar humildemente meu temor: a liturgia da forma ordinária pode nos fazer correr o risco de nos distanciarmos de 
Deus por causa da presença massiva e central do sacerdote. Este está constantemente diante de seu microfone e tem, sem interrupção, a visão e a atenção dirigidas ao povo. É como uma tela opaca entre Deus e o homem. Quando celebrarmos a missa, coloquemos sobre o altar uma grande cruz, uma cruz bem visível, como ponto de referência para todos: para o sacerdote e para os fiéis. Assim teremos nosso Oriente, porque, em definitivo, o Oriente cristão, diz Bento XVI, é o Crucifixo.
Ad orientem
Estou convencido que a liturgia pode se enriquecer das atitudes sagradas que caracterizam a forma extraordinária, todos esses gestos que manifestam nossa adoração da santa eucaristia: juntar as mãos após a consagração, fazer a genuflexão antes da elevação e após o Per ipsum, comungar de joelhos, receber a comunhão nos lábios se deixando nutrir como uma criança, como Deus mesmo nos disse: “Eu sou o Senhor seu Deus. Abre sua boca, e eu a encherei” (Salmo 81, 11).

“Quando a visão sobre 
Deus não é determinante, todo o restante perde sua orientação”, disse-nos Bento XVI. Também o oposto é verdade: quando se perde a orientação do coração e do corpo para Deus, deixa-se de se determinar em relação a ele, perde-se o sentido da liturgia. Orientar-se para Deus é, antes de tudo, um fato interior, uma conversação de nossa alma para o Deus único. A liturgia deve operar em nós esta conversão para o Senhor que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isso, essa utiliza sinais, meios simples. A celebração “ad orientem” é um deles. É um tesouro do povo cristão que nos permite manter vivo o espírito da liturgia. A celebração orientada não deve se converter na expressão de uma atitude facciosa e polêmica. Ao contrário, deve continuar sendo a expressão do movimento mais íntimo e essencial de toda liturgia: dirigir-nos ao Senhor que vem.
O silêncio litúrgico
Tive a oportunidade de ressaltar a importância do silêncio litúrgico. Em seu livro O espírito da liturgia, o cardeal Ratzinger escrevia: “Todo aquele que faça a experiência de uma comunidade unida na oração silenciosa do Canon, sabe que isto representa um silêncio autêntico. Aqui, o silêncio é, ao mesmo tempo, um grito poderoso, penetrante, lançado para Deus, e uma comunhão de oração repleta do Espírito”. Em seu momento, já havia afirmado com firmeza que recitar em voz alta toda a oração eucarística não era o único meio para obter a participação de todos. Temos que trabalhar para alcançar uma solução equilibrada e abrir espaços de silêncio neste âmbito.
A verdadeira “reforma da reforma”
Faço um chamado de todo o meu coração para que se coloque em andamento a reconciliação litúrgica ensinada pelo Papa Bento, no espírito pastoral do Papa Francisco! A liturgia nunca deve se tornar a bandeira de um partido. Para alguns, a expressão “reforma da reforma” se tornou sinônimo de domínio de um partido sobre o outro. Portanto, esta expressão corre o risco de se tornar uma expressão inoportuna. Prefiro, por conseguinte, falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem adversários!

Como escrevia o cardeal 
Ratzinger: “Temos que voltar a encontrar o sentido do sagrado, o valor de distinguir o que é cristão do que não é. Não para levantar barricadas, mas para transformar, para sermos verdadeiramente dinâmicos”. Mais que “reforma da reforma”, trata-se de uma reforma dos corações! Trata-se de uma reconciliação das duas formas do mesmo rito, em um enriquecimento recíproco. A liturgia deve sempre se reconciliar consigo mesma, com seu ser profundo!

Iluminados pelo ensinamento do 
motu proprio de Bento XVI, confortados pela audácia do Papa Francisco, é o momento de chegar ao fundo deste processo de reconciliação da liturgia consigo mesma. Seria um sinal magnífico se pudéssemos, em uma próxima edição do missal romano reformado, incluir no apêndice as orações ao pé do altar da forma extraordinária, talvez em uma versão simplificada e adaptada, e as orações do ofertório que contêm uma epiclese tão bela que completa o Canon romano. Deste modo, ficaria manifestado que as duas formas litúrgicas se iluminam reciprocamente, em continuidade e sem oposição!

(Fonte: Fratres in Unum)