sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

UM CATÓLICO PODE ABANDONAR, ‘SEGUNDO A SUA CONSCIÊNCIA’, A IGREJA CATÓLICA?


Certamente que o estado presente do mundo e as técnicas de escravidão às ideologias reinantes e corruptoras da fé não facilitam a vida cristã. Mas, precisamente, é para este mundo que os cristãos foram empurrados pela Hierarquia e segundo o espírito do Vaticano II. Eles ficaram desarmados, abandonados, privados do ensinamento da doutrina católica, desfigurada por numerosos catecismos e pregações, face ao desencadeamento da heresia que encontrou muita cumplicidade aberta e oficial no seio da Igreja.
O personalismo [de Emmanuel Mounier], que desde há muito envenenou o pensamento católico, é a filosofia dos direitos do homem, da abertura para o mundo, da liberdade religiosa e do ecumenismo, a filosofia que arrastou o povo cristão a pensar e argumentar à margem da luz da fé católica e que, em retorno, solapa esta.



A realidade é que o povo cristão como um todo perdeu a fé. Claro que só Deus sonda os rins e os corações, mas é observável e certo que a maior parte dos cristãos não mais professam a fé da Igreja, nem no seu modo de viver, nem nas suas palavras quando interrogados sobre sua adesão a esta ou aquela verdade pertencente ao depósito revelado.

A realidade é que esta “apostasia imanente”, segundo a expressão de Maritain, foi querida por aqueles que deveriam tê-la impedido e que, pelo contrário, introduziram e em seguida — quando os efeitos ficaram visíveis — mantiveram suas causas. Certamente que o estado presente do mundo e as técnicas de escravidão às ideologias reinantes e corruptoras da fé não facilitam a vida cristã. Mas, precisamente, é para este mundo que os cristãos foram empurrados pela hierarquia e segundo o espírito do Vaticano II. Eles ficaram desarmados, abandonados, privados do ensinamento da doutrina católica, desfigurada por numerosos catecismos e pregações, face ao desencadeamento da heresia que encontrou muita cumplicidade aberta e oficial no seio da Igreja.

A realidade é uma reforma litúrgica infestada do espírito do protestantismo; reforma que não é nem fruto nem expressão da fé da Igreja; reforma que faz o povo cristão perder o sentido da infinita santidade de Deus ao esvaziar os testemunhos exteriores de adoração e desviar a liturgia para o “culto do homem”.

A realidade é que, de fato, os que querem conservar a fé católica, confessá-la integralmente e produzir as obras dela não podem fazê-lo senão contra a autoridade, ou ao menos à margem dela.

A realidade é que os autores ou fautores de heresia e de imoralidade vivem tranquilamente nas estruturas conciliares, e que o franzir as sobrancelhas, a que alguns espalhafatosos foram sujeitos, não constitui em nada uma defesa e promoção da fé católica.

A realidade é que a inteligência da fé é destruída pela invasão do personalismo, que é a filosofia subjacente, empregada pelos textos do Vaticano II. O personalismo, que desde há muito envenenou o pensamento católico, é a filosofia dos direitos do homem, da abertura para o mundo, da liberdade religiosa e do ecumenismo, a filosofia que arrastou o povo cristão a pensar e argumentar à margem da luz da fé católica e que, em retorno, solapa esta.

Retomemos o segundo parágrafo da Dignitatis Humanæ, no qual vem definida a liberdade religiosa tal como a entende o Vaticano II:

“O Concílio do Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Essa liberdade consiste nisto: todos os homens devem estar subtraídos à coação por parte tanto dos indivíduos quanto dos grupos sociais e de qualquer poder humano que seja, de tal maneira que em matéria religiosa ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência nem impedido de agir segundo a sua consciência, tanto em privado quanto em público, sozinho ou associado a outros, dentro de justos limites.”


Ora, segundo a teologia católica mais certa, é impossível para um católico abandonar “segundo a sua consciência” a Santa Igreja; assim ensina o Concílio Vaticano I:



“A condição daqueles que aderiram à verdade católica graças ao dom celeste da fé é completamente diferente da condição dos que, conduzidos por opiniões humanas, seguem uma falsa religião; aqueles que receberam a fé sob o Magistério da Igreja nunca podem ter motivo justo de mudar ou de pôr em dúvida esta fé”. (20 de abril de 1870, Denzinger n.º 1794)

Fonte:
 Acies Ordinata

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Sacerdotes Brasileiros reprovam Padres Cantores
Uma frase, atribuída a Santo Agostinho, iluminou, desde a época dos Padres da Igreja, o papel da música nas atividades eclesiais: “quem ama canta, e quem canta reza duas vezes”. Que música era, então, essa que, durante muito tempo, deu, aos fiéis e aos gentios, público testemunho de sua fé? Tanto no Antigo Testamento quanto na Igreja Primitiva, a música sacra, entendida como súplica e louvor, esteve presente nas celebrações litúrgicas – Moisés cantou ao som dos tímpanos, acompanhado pelo canto do povo (Ex 15, 1-20); Davi e “toda a casa de Israel dançavam diante de Iahweh ao som de todos os instrumentos de madeira de cipreste, das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos” (2Sm 6, 5). Nos primeiros tempos da Igreja de Roma, o canto dos Salmos já estava presente nas assembleias dos cristãos, tendo por origem a música judaica, especialmente a salmodia, praticada nas sinagogas. Sob o ponto de vista cronológico seguiu-se o canto gregoriano, organizado por São Gregório Magno e popularizado nos círculos católicos europeus entre os séculos VIII e IX, e, mais tarde, nos séculos XV e XVI, a polifonia[1]. Em inícios do século XX, o Papa São Pio X, por intermédio do Motu ProprioTra le Sollecitudini, publicado em 22 de novembro de 1903, concedia novo esplendor ao canto gregoriano, enquadrando, naquele documento, o papel da música sacra no âmbito dos ofícios religiosos. O Sumo Pontífice enfatizou: “Uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana, e será tanto menos digna do templo quanto mais se afastar daquele modelo supremo”.
Entre 1962 e 1965, na sequência da convocação do Papa São João XXIII, o Concílio Vaticano II pretendeu renovar a missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo, nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas Comunidades. No âmbito da popularização da música religiosa, no Brasil, logo em inícios da década de 1960, “uma irmandade do interior de São Paulo[,] as ‘Missionárias de Jesus Crucificado[,] lançavam em 1963 o seu primeiro LP, intitulado ‘Missionárias em LP’, com selo da própria irmandade, com músicas compostas pelas próprias irmãs e feito sob encomenda pela Cia Industrial de Discos no RJ”. Anos mais tarde, em 1967, o Padre José Fernandes de Oliveira – o Padre Zezinho –, “depois de ter sido ordenado em 1966 nos EUA, vem para o Brasil e muda completamente a forma de se conduzir uma missa, compondo e introduzindo instrumentos elétricos, atraindo multidões… principalmente os jovens, pois falava a linguagem que os jovens da época entendiam”. Mais recentemente, graças ao impulso dado pela Renovação Carismática Católica, sem que se confundissem a música sacra, a música popular religiosa e as variantes musicais, ao gosto das multidões, sob o ponto de vista nominaldenominadas como católicas[2], emergiu o primeiro dos muitos padres cantores com dimensão midiática: o Padre Marcelo Rossi[3] que, desde 1997, recorre ao canto, à dança e às coreografias em missas lotadas e programas de televisão. Hoje em dia, os Padres Jonas Abib, Fábio de Melo, Antônio Maria, Reginaldo Mazotti, Hewaldo Trevisan, Alessandro Campos, Marcos Roberto Pires – o Padre Elvis –, assim como, até há pouco tempo, o ex-Padre Zeca[4], de entre outros, atraem anualmente, com seus espetáculos musicais que, por vezes, se aproximam daindústria cultural[5], no país e no estrangeiro, milhões de espectadores. Por outro lado, as obras literárias destes sacerdotes, um misto de popularização do Sagrado e um esforço de auto-ajuda, têm vindo a conquistar, de maneira crescente, a atenção das editoras livreiras, tanto as católicas, quanto as estritamente comerciais.
A atividade dos chamados padres cantores, ou padres artistas, captou o interesse das grandes produtoras discográficas, mundiais e nacionais[6]. A mundanidade de algumas daquelas vocações tem suscitado críticas por parte de sacerdotes brasileiros. Em 2010, Dom Aldo Di Cillo Pagotto, Arcebispo da Paraíba, declarou: “Eu critico o ato de se fazer do evangelho um show. Há tempos, a igreja tinha entrado em temáticas sociais e com um viés um tanto esquerdista. De um tempo para cá, a igreja entrou nessa questão de padres cantores, artistas”. Dom Aldo adiantou ainda que, com este tipo de prática, misto de religiosidade e de show multitudinário, “corremos o risco de ficar no emotivo-show e no ‘oba-oba’. Como atrelar a emotividade? E depois? Esse ganho de um compromisso sistemático, do itinerário de obras… a fé sem obras é morta”. Por seu turno, indo mais longe, Frei Betto situou a problemática dos padres cantores no âmbito do processo mundial de globalização. Deste modo, ele escreveu: “A globalização nada mais é do que a redução do mundo a um mercado, onde investem os donos do capital e no qual a condição de cidadão importa menos que a de consumidor”. A Igreja light, que tem, como representantes maiores, os Padres que transformam a fé em relação mediada pelo divertimento, levou Frei Betto a referir que, atualmente, “nem a religião escapa. Criada para elevar as pessoas a outro nível de consciência, para que vivenciem a comunhão com Deus e entre si, e fundada em valores derivados de revelação transcendente, aos poucos perde sua dimensão profética, de denúncia e anúncio”. Afastada do plano dos deveres e reduzida à esfera festival da existência, a Igreja, tal como é promovida pelos astros da canção católica, “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção truncada, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades; a reflexão bíblico-teológica; e o compromisso pastoral no serviço à justiça”. De acordo com Frei Betto, se Jesus Cristo, em seus dias terrenos, “tivesse adotado estilo semelhante, […] não teria sofrido perseguição, nem sido preso, torturado e assassinado na cruz. A multidão teria clamado por ele, e não por Barrabás. Na entrada de Jerusalém, o burrinho cederia lugar ao cavalo branco dos imperadores”.
O Padre Leonardo Holtz Peixoto é um sacerdote tradicionalista, membro da Fraternidade de São Pio X. Repudiando o modernismo[7], dominante em círculos significativos do clero brasileiro, ele escreveu, em janeiro de 2011, uma carta a Dom Orani João Tempesta, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro. Nela, o Padre Leonardo inquiriu: “Por que nossas paróquias e santuários estão repletos de fiéis nas missas (especialmente nas missas-show), mas as pastorais estão vazias? Por que nossos fiéis não sabem mais o catecismo? Por que as quadras de samba e as praias estão muito mais bem frequentadas do que nossas paróquias? Creio que muitos saibam as respostas dessas perguntas, mas muito poucos tem a CORAGEM de admitir, pois é muito mais confortável colocar remendos do que derrubar tudo e reconstruir”. Prosseguindo sua missiva, em tom duro, o Padre Leonardo, contrapondo sua opção vital e religiosa aos vícios presentes na prática de membros do sacerdócio, desde oaggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II[8], assinala: “Hoje temos de tudo: padres cantores, psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES! Encontramos padres em todos os ambientes hoje, mas, se bobearmos, só não os achamos nas paróquias. Soube que existe um padre que não rezava a Missa da primeira sexta-feira do mês em sua paróquia; as senhoras do Apostolado da Oração para obrigá-lo a rezar a Missa, fazem uma ‘vaquinha’ todo mês e lhe dão uma espórtula*. Isso porque ele afirma que só celebra durante a semana se houver intenções marcadas. Mas, mediante uma espórtula*, abre-se uma exceção”.
Em 12 de Abril de 2014, véspera de Domingo de Ramos, o Padre Fábio de Melo participou no programa televisivo “Altas Horas”, da TV Globo. A Associação dos Devotos de Fátima, com sede em São Paulo, indignada com o fato de o sacerdote se ter apresentado sem estar paramentado, em plena Quaresma, manifestou sua indignação nos seguintes termos: “Enquanto ele se apresentava na madrugada de sábado, em Roma o Papa Francisco preparava-se para celebrar a Missa do Domingo de Ramos e dar início às cerimônias da Semana Santa que precedem a Páscoa”. Deste modo, segundo a Associação, não “é normal ver um padre exercendo seu papel sacerdotal sem as devidas preocupações com seus votos e com sua imagem que deve ser, antes de tudo, a imagem da Santa Igreja”. Na sequência, em abaixo-assinado dirigido à hierarquia católica, no qual se pedia o “direcionamento” dos padres cantores, a Associação dos Devotos de Fátima salientou: “Com frequência temos que lutar com a perplexidade de ver esses religiosos participando de programas totalmente inadequados, tanto para sua condição quanto para o bom exemplo e formação espiritual dos fiéis”. Por outro lado, em 18 de  agosto de 2015, o Cardeal Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Emérito de Brasília e atual Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, em visita ao Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, situado em São José dos Campos (SP), teve a oportunidade de se referir aos padres cantores. Em entrevista ao G1, sem citar nomes, ele teceu as seguintes considerações: “Nem tudo nos nossos padres cantores está claro, basta olhar. É preciso voltar ao essencial, questionar o porque se está ali cantando aquela música na televisão. Qual a razão que me faz estar aqui? É Jesus Cristo? Minha fama? O dinheiro?”. Prosseguindo, Dom Braz de Aviz sublinhou que “não é bom deixar estragar tudo para depois mexer. Eu não cito nomes, mas tem coisas chatas aí”. Em contrapartida, o prelado, que é grande admirador da obra do Padre Zezinho, considerou o fato de que aquele sacerdote “não se apegou à imagem e ao dinheiro. O que sobressai nele é Jesus Cristo. Se o que conta é o dinheiro, a fama e o poder, mesmo que você tenha uma bela voz e fale bonito, está errado”. Ao terminar a entrevista, o Cardeal se referiu ao celibato dos consagrados mas, implicitamente, também ao primado dos valores práticos e hedonísticos em detrimento do primado da espiritualidade entre alguns dos religiosos do país: “Precisamos pautar nossa vida em um testemunho simples e direto, convicto. Se uma pessoa consagrada vive infeliz e carrancuda, pode ir para outro lado, buscar outro caminho ou ela deve mudar[9].
Os caminhos, por vezes transviados, de determinados membros da Igreja Católica, percorridos contemporaneamente em práticas que indicam a ostentação materialista, nos levam a relembrar a validade da recomendação feita por S. Paulo em sua Epístola aos Efésios: “Falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração” (Ef 5, 19). Em 1985, advertindo os católicos para os tempos que, já naquela época, se intuíam em sua plenitude, o então Cardeal Dom Joseph Ratzinger – o futuro Papa Emérito Bento XVI –, em diálogo mantido com Vittorio Messori, estabeleceu um divisor de águas entre a espiritualidade e o entendimento da fé como teatro do mundo. Ratzinger foi peremptório: “A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções ‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade, para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento”, à semelhança dos êxitos musicais feitos para conquistar espectadores e mercados[10]. Com efeito, se cada um de nós – e também os padres cantores – pode fazer tudo aquilo que quer, convém ter presente aquilo que, em cada momento de nossas vidas, nós devemos fazer. No caso específico dos sacerdotes, que devem constituir fontes irradiadoras de espiritualidade, isto é tanto mais relevante. Por isso, “a Prudência ensina a cuidar tanto, ou mais, no que se deve omitir, como no que se há-de dizer[11] e se há-de levar a cabo.
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* Gratificação em dinheiro, gorjeta, esmola.
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Imagem Padre Alessandro Campos, um dos ícones dos padres cantores brasileiros” (Fonte):
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Fontes Bibliográficas:
[3] Estabelecendo as analogias e as diferenças entre as práticas do Padre Marcelo Rossi e do Bispo Edir Macedo, Fernando de Barros e Silva escreveu, no jornal Folha de S. Paulo: “O padre Marcelo Rossi é uma versão light, asséptica, socialmente aceitável e esteticamente palatável da Igreja Universal; o transe coletivo que ele mobiliza é por assim dizer epidérmico, se resolve com musiquinhas infantis e coreografias de auditório; não há, como no caso da Universal, demônio para ser enfrentado, não há necessidade de provação nem praticamente introspecção por parte dos fiéis engajados na sua fé aeróbica. As freirinhas que pulavam histéricas no Terço Bizantino são algo como a versão Disneylândia dos pastores com ar de capangas da fé da Igreja Universal”.
[4] Ver:
Isabel de Luca, “Zeca de Mello, Confissões de Um Ex-padre que se Reinventa Seis Anos Após Deixar a Batina”, O Globo, Rio de Janeiro, 11.08.2013.
Disponível online, em:
[5] De acordo com o teólogo Leonardo Boff, o “padre Marcelo Rossi está imitando as [igrejas] pentecostais. Há um vazio de evangelização, é a relação pessoa e Deus. É melhor escutar o padre Rossi do que escutar a Xuxa, mas é a mesma coisa. Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação. É um Lexotan. Depois volta a lógica dura da vida. É uma evangelização desgarrada da vida concreta.”, LEOPOLDO MATEUS, “Leonardo Boff: ‘João Paulo II e Bento XVI Afastaram a Igreja do Mundo’”, Época, São Paulo, 18.09.2010.
Disponível online, em:
[6] São de referir, a título de exemplo, as seguintes gravadoras globais que mantêm, ou mantiveram, contratos com padres cantores: Canção Nova (Fábio de Melo); Comunidade Canção Nova (Jonas Abib); LGK Music (Fábio de Melo); Paulinas – COMEP (Fábio de Melo; Jonas Abib; Padre Zezinho); Som Livre (Alessandro Campos; Fábio de Melo; Reginaldo Manzotti); Sony Music (Fábio de Melo; Marcelo Rossi); Universal Music (Marcelo Rossi).
[7] Em 1907, o Santo Papa Pio X, no Decreto Lamentabili Sane Exitu e na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, condenou o modernismo, tendo tornado obrigatório, para todos os membros do Clero, Pastores, Confessores, Pregadores, Superiores religiosos e Professores em Seminários de filosofia e teologia, o Juramento Anti-Modernista. O Juramento seria revogado em 1967, pelo Papa Paulo VI, que considerava o conceito de modernismo ambíguo, podendo se confundir com o modernismo, utilizado em sentido estético. Deste modo, a partir da decisão tomada por aquele Pontífice, o modernismo ficou restrito aos católicos tradicionalistas, passando os erros modernistas a ser referidos por seus próprios nomes: secularismo, laicismo, liberalismo, relativismo, subjetivismo e cientificismo.
[9] Ilustram a desorientação das vocações de alguns religiosos brasileiros as declarações que passamos a referir:
Dalcides Biscalquin, um ex-padre cantor ligado à Canção Nova, em entrevista a Gabriel Chalita, conta com naturalidade como decidiu abandonar “a vida eclesiástica para viver um grande amor, um amor divinamente humano”. Para o ex-salesiano, “não era possível para mim repousar somente nos braços do sagrado, negando meu lado humano”.
[10] Muitos compositores da música popular compõem primeiro a música e depois a letra. Para quem coloca em primeiro plano a letra, como no canto gregoriano, é impensável compor antes a música e depois a letra. Seria colocar o carro à frente dos bois. O primeiro plano para o compositor gregoriano é a letra, a Palavra de Deus, e não pode ser diferente; a música vem em segundo plano; ela nasce do texto e de sua prosódia. A forma da música e a sua estrutura são o resultado da forma e da estrutura do texto: o texto inspira a música. O mesmo se diga de qualquer outra peça de canto atual destinado à liturgia. O compositor de música litúrgica sente-se inspirado quando tem diante dos olhos um bom texto baseado na Bíblia: lendo o texto, o compositor já vai planejando a parte musical. Pois, na liturgia, a música é inspirada na Palavra de Deus. A música é servidora da Palavra à semelhança do canto gregoriano.”, JOSÉ W. WEBER, Introdução ao Canto Gregoriano, São Paulo, Paulus, 2013, págs. 19-20.
[11] UM RELIGIOSO DA ORDEM TERCEIRA [FREI MANUEL DO CENÁCULO], Memórias Históricas do Ministério do Púlpito, Lisboa, Na Régia Oficina Tipográfica, 1776, pág. 264.

(FONTE: Ceiri Newspaper)

FELIZ ANO NOVO DE PAZ! Postado por Dom Fernando on às 06:14 |

            Em sua mensagem para o 50º dia mundial da Paz, que se celebra no próximo dia 1º de janeiro, sob o título “A não-violência: estilo de uma política para a paz”, o Santo Padre, o Papa Francisco, formula seus votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, aos responsáveis das Comunidades Religiosas e das várias expressões da sociedade civil, rezando para que “a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa”, insistindo que “sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta dignidade mais profunda e façamos da não violência ativa o nosso estilo de vida”.

Desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas”.
A guerra e a vingança não são a solução: “A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos”.
“O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: ‘Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos’ (Mc 7, 21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mt 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mt 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de a lapidar (cf. Jo 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mt 26, 52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Ef 2, 14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações”.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não basta ser líder religioso: é preciso se vestir como um.

...  (por mais que padres e até bispos adorem andar disfarçados de leigos por aí, as regras da Igreja Católica obrigam o sacerdote a usar batina ou pelo menos o clergyman, aquele colarinho próprio dos padres). O argumento dos fãs do disfarce é o velho ditado “o hábito não faz o monge”, segundo o qual é perfeitamente possível ser um bom padre sem usar o traje clerical, e que a batina por si só não impede um padre de cometer barbaridades (aliás, concordo com o segundo ponto e discordo do primeiro). O mesmo raciocínio se aplicaria ao hábito das ordens religiosas masculinas e femininas. Mas uma pesquisa de Hajo Adam e Adam Galinsky, da Northwestern University, publicada no Journal of Experimental Social Psychology, ... avaliou o impacto do traje não na maneira como quem o veste é percebido pelos outros, mas no modo como a pessoa percebe a si mesma quando está usando a roupa característica de sua função. Uma reportagem de Tom Jacobs destrincha a pesquisa mostrando como os participantes da experiência (estudantes de graduação, pelo que entendi) melhoraram seus resultados em testes que exigiam atenção e cuidado quando vestiam jaleco do tipo usado por médicos ou em laboratórios. Para comparar, outros estudantes também estavam com o mesmíssimo uniforme, mas foram informados de que se tratava de jalecos do tipo usado por artistas quando estão pintando. Esse grupo não apresentou nenhuma melhora nos resultados dos testes. “Parece haver algo especial sobre a experiência física de vestir certa peça de roupa”, escreveram os pesquisadores.
E onde entram as roupas usadas por líderes religiosos (e aí não estamos falando só da batina dos padres ou do hábito de frades, monges e freiras)? Galisnky e Adam fizeram um comentário no siteScience and religion today explicando que o resultado de sua pesquisa também poderia ser aplicado aos trajes dos clérigos, e que seu uso seria importante “não apenas pela impressão que [o traje] causa nos outros, mas também pela influência que a vestimenta tem sobre os próprios líderes”, já que a roupa “pode exercer influência sobre o modo como quem a usa sente, pensa e se comporta, através do significado simbólico associado a ela”. Assim como uma toga significa justiça, um terno caro significa poder e um jaleco de laboratório significa atenção e foco científico, o traje clerical é associado a “fé, dedicação e ao compromisso de liderança responsável na comunidade religiosa”, e o líder religioso “pode exercer suas tarefas e inspirar seguidores de forma mais efetiva quando usa esse tipo de vestimenta”. É importante ressaltar que o traje não impede nenhum líder religioso de agir mal; mas, pelo que Galinsky e Adam concluem, a roupa tem, sim, um efeito sobre quem a usa. ..