sábado, 10 de dezembro de 2016

ORIENTAÇÕES PASTORAIS SOBRE A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA Documento 53 da CNBB - "Série Azul"

E) Questões particulares
54 - Alguns temas necessitam de maior aprofundamento teológico, diálogo eclesial e orientação pastoral, tais como: Batismo no Espírito Santo, dons e carismas, dom da cura, orar e falar em línguas, profecia, repouso no Espírito, poder do mal e exorcismo.
55 - A palavra "batismo" significa tradicionalmente o sacramento da iniciação cristã. Por isso, será melhor evitar o uso da expressão "batismo no Espírito", ambígua, por sugerir uma espécie de sacramento. Poderão ser usados termos como "efusão do Espírito Santo", "derramamento do Espírito Santo". Do mesmo modo, não se utilize o termo "confirmação" para não confundir com o sacramento da Crisma (Cf. Comissão episcopal de doutrina - Comunicado mensal, Dez de 1993, 2217).
56 - Dons e carismas: O grande dom, que deve ser por todos desejado, é o da caridade: "Aspirai aos dons mais altos. Aliás, passo a indicar-vos um caminho que ultrapassa a todos..." (1Cor. 12,31-13,13). "A caridade é o primeiro dom e o mais necessário, pelo qual amamos a Deus acima de tudo e o próximo por causa dele" (LG. 42).
57 - "O Espírito Santo unifica a Igreja na comunhão e no ministério. Dota-a e dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos" (LG. 4). O Espírito opera "pelas múltiplas graças especiais, chamadas de carismas, através das quais torna os fiéis aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios que contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja" (Catecismo da Igreja católica, 798). Os carismas devem ser recebidos com gratidão e consolação. E não devem ser temerariamente pedidos nem se ter a presunção de possuí-los (cf. LG. 12).
58 - Haja muito discernimento na identificação de carismas e dons extraordinários. Diante das pessoas que teriam carismas especiais, o juízo sobre sua autenticidade e seu ordenado exercício compete aos pastores da Igreja. A eles em especial cabe não extinguir o Espírito, mas provar as coisas para ficar com o que é bom (cfr. 1Tes. 5,12.19.21). Assim, também no que se refere aos carismas, a RCC se atenha rigorosamente às orientações do bispo diocesano.
59 - Dom da cura: O Senhor dá a algumas pessoas um carisma especial de cura, para manifestar a força da graça do Ressuscitado. No entanto, as orações mais intensas não conseguem obter a cura de todas as doenças. São Paulo aprende do Senhor que "basta minha graça, pois é na fraqueza que minha força manifesta todo seu poder" (2Cor. 12,9), e que os sofrimentos que temos que superar podem ter como sentido "completar na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja" (Cl. 1,24).
60 - Ao implorar a cura, nos encontros da RCC ou em outras celebrações, não se adote qualquer atitude que possa resvalar para um espírito milagreiro e mágico, estranho à prática da Igreja Católica (cf. Eclo. 38,11-12).
61 - Nas celebrações com doentes, não se usem gestos que dão a falsa impressão de um gesto sacramental coletivo ou que uma espécie de "fluido espiritual" viesse a operar curas.
62 - O Óleo dos Enfermos não deve ser usado fora da celebração do Sacramento. Para não criar confusão na mente dos fiéis, quem não é sacerdote não faça uso do óleo em bênção de doentes, mas use apenas o Ritual de Bênçãos oficial da Igreja.
63 - Orar e falar em línguas: O destinatário da oração em línguas é o próprio Deus, por ser uma atitude da pessoa absorvida em conversa particular com Deus. E o destinatário do falar em línguas é a comunidade. O apóstolo Paulo ensina: "Numa assembléia prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também aos outros, a dizer dez mil palavras em línguas" (1 Cor 14,19). Como é difícil discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja interprete.
64 - Dom da profecia: Na Bíblia, profeta é o que fala em nome de Deus. Significa, pois, um evangelizador. É a comunicação de assuntos espirituais aos participantes de reuniões comunitárias, aos quais se dirigem palavras de exortação e encorajamento. "Aquele que profetiza, fala aos homens: edifica, consola, exorta" (1Cor. 14,3). É um dom para o bem da comunidade e não tem em vista adivinhações futuras.
65 - Haja grande discernimento quanto ao dom da profecia, eliminando qualquer dependência mágica e até supersticiosa.
66 - Em Assembléias, grupos de oração, retiros e outras reuniões evite-se a prática do assim chamado "repouso no Espírito". Essa prática exige maior aprofundamento, estudo e discernimento.
67 - Poder do mal e exorcismo: Cristo venceu o demônio e todo o espírito do mal. Nem tudo se pode atribuir ao demônio, esquecendo-se o jogo das causas segundas e outros fatores psicológicos e até patológicos.
68 - Quanto ao "poder do mal", não se exagere a sua importância. E não se presuma ter o poder de "expulsar" demônios. O exorcismo só pode ser exercido de acordo com o que estabelece o código de Direito canônico (Cân. 1172). Por isso, seja afastada a prática, onde houver, do Exorcismo exercido por conta própria.
69 - Procure-se ainda formar adequadamente as lideranças e os membros da RCC para superar uma preocupação exagerada com o demônio, que cria ou reforça uma mentalidade feitichista, infelizmente presente em muitos ambientes.

A PRIVATIZAÇÃO DA FÉ

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 377 – outubro 1993
Mundo Atual
Tendência forte:
Em síntese: A privatização da fé é a atitude de quem professa Jesus Cristo, mas não freqüenta a Igreja. Pode ter diversos motivos, entre os quais se salienta a dificuldade de aceitar uma instituição com suas normas jurídicas; a mentalidade subjetivista de nossos dias alimenta tal dificuldade.

Em resposta deve-se lembrar que ser cristão não é simplesmente crer em Deus, mas é crer em Deus como Jesus O revelou. O Senhor Jesus se apresentou como o Mediador da definitiva Aliança entre Deus e os homens; Ele veio fazer uma convocação (ek-klesía) dos homens dispersos, reunindo-os num só povo, o povo de Deus. Esse povo é mais do que a soma de seus membros; é Sacramento, visto que Jesus prometeu estar em sua Igreja e continuar por Ela a sua obra redentora até o fim dos tempos: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos. Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt 28,19s). Pela Igreja passa a vida de Cristo em favor de quem a Ela adere, sem que a fragilidade dos homens da Igreja possa impedir a ação redentora de Cristo no sacramento da Igreja. Por conseguinte. Cristo e Igreja são inseparáveis um do outro. A privatização da fé só pode resultar da ignorância da autêntica índole do Cristianismo.
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O jornal "O Estado de São Paulo", em seu Caderno Especial de 13/06/93, pp. 3 e 4 publicou interessante noticiário sobre a Religião no mundo atual. Registrava a profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo por parte de numerosos segmentos da população da Alemanha, Inglaterra, Itália, Holanda, Estados Unidos, Nova Zelândia, Polônia, Eslovênia, Irlanda, Hungria, Noruega, Israel. Assim, por exemplo, nos Estados Unidos 90% das pessoas entrevistadas disseram crer em Deus.

Ocorre, porém, o fenômeno da privatização da fé, ou seja, da não freqüência à Igreja. A fé se torna um assunto meramente pessoal, sem expressões comunitárias. Visto que o fato tende a se alastrar mesmo entre os católicos, as páginasseguintes abordarão, tocando o âmago da questão.

1. PRIVATIZAÇÃO DA FÉ: POR QUE?

existência de muitas pessoas que crêem em Deus e em Jesus Cristo, mas não vão à Igreja, tem suas causas, que vamos procurar catalogar:
1)   Migrações. O fenômeno de pessoas que deixam seu torrão natal para estudar ou trabalhar longe daí, cada vez mais freqüente. Ora acontece facilmente que tais pessoas, ao deixarem seu ambiente de origem, deixam também muitos de seus costumes; sentem-se desarraigadas e dispostas a ser absorvidas pelo novo mundo em que passam a viver,... mundo de megalópole, materializado ou absorvido pelas conquistas materiais. Abandonam então sua prática religiosa e"privatizam" sua fé, reduzindo-a a um sentimento íntimo.
2)   Moral Católica. Para quem vive na grande cidade, o motivo da privatização deve ser outro: consiste, muitas vezes, na recusa de certas normas da Moral Católica, que a Igreja professa: o Não ao divórcio, ao aborto, ao homossexualismo, às relações extra-conjugais... é a antítesis do que a sociedade de hoje aceita e pratica... Isto torna a Moral Católica difícil, mas, sem dúvida, garantia e tutora dos verdadeiros valores humanos. Por não compreenderem este papel benéfico, há quem se afaste da Igreja, embora continue a crer em Jesus Cristo.
3)   Existencialismo Subjetivismo. Este isolamento religioso pode não causar estranheza, visto que a sociedade contemporânea está impregnada de mentalidade existencialista, alheia à Metafísica e voltada para o eu individual de cada cidadão. O critério dos valores é o eu circunstanciado de cada um (eu e minhas circunstâncias, tu e tuas circunstâncias...). Em questões de Ética, Direito, Religião... é freqüente dizer-se: "Eu acho que... Para mim é assim,..., Cada um na sua verdade, na sua Ética...". Tal subjetivismo é mais cômodo do que a aceitação da vida em comunidade.
4)   A face humana da Igreja. Além do mais, sabe-se que a Igreja tem uma face humana, que é bela ou desfigurada de acordo com as pessoas que a constituem. A fragilidade humana nem sempre corresponde ao ideal, de modo que muitos se afastam da Igreja escandalizados (com ou sem razão) pelo que observaram.

Parecem ser estas as principais causas da privatização da fé. Procuremos agora uma resposta para o problema.

2. QUE DIZER?

As nossas considerações terão em vista a privatização da fé dentro do Cristianismo ou, mais precisamente, dentro do Catolicismo.

2.1. Aliança

Um cristão não é simplesmente alguém que crê em Deus. Um cristão crê em Deus tal como Jesus O revelou. Jesus se apresentou e comprovou, por seus ditos e feitos, como o Enviado do Pai, Mestre de todos os homens; principalmente a sua ressurreição dentre os mortos é o sinete colocado pelo Pai sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo; cf. 1Cor 15,14.17.
Ora Jesus sempre se situou na linha de uma Aliança entre o Pai e o gênero humano. Essa Aliança interpela pessoalmente cada ser humano... mas cada ser humano situado dentro de um povo. Deus faz Aliança com o povo santo e, porque é membro desse povo santo, cada cristão entra em Aliança com Deus: antes de Jesus Cristo, havia o povo da Antiga Aliança, os judeus; após Jesus Cristo, há o povo da Nova Aliança, a Igreja, cujo nome Ek-klesía, em grego, significa convocação; a Igreja continua o papel do antigo Israel. É por isto que em toda a pregação de Jesus se enfatiza a comunhão dos discípulos entre si dentro de uma sociedade organizada:

"Não temais, pequeno rebanho..." (Lc 12,32);

"Como o Pai me enviou, assim eu vos envio..." (Jo 2021);
"Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu..." (Mt 18, 18; cf. 16, 19);
"O Espírito Santo... vos ensinará tudo, e vos recordará tudo o que eu vos disse" (Jo 14, 26);
"Simão, Simão,... roguei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lc 22,31 s);

"Simão, apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,15-17).

É muito compreensível o propósito do Pai, visto que o ser humano é, naturalmente, um ser social; só se realiza plenamente em comunidade, tanto no plano meramente racional quanto no plano da fé. Daí dizer o Concílio do Vaticano II:
"Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem conexão de uns com os outros, mas sim constituir um povo que o conhecesse na verdade e santamente lhe servisse" (Constituição Lúmen Gentium n. 9).

2.2. Sacramento

A Igreja assim constituída, tem uma face humana, mas não é apenas a soma dos homens que a compõem. Dentro dela vive o Cristo. Este comparou-se a um tronco de videira, da qual somos os ramos; isto quer dizer que há uma comunhão de vida entre Cristo e seus discípulos ou sua Igreja. Por meio do sinal humano da Igreja, o Cristo exerce a sua ação santificadora em favor dos homens. É o que torna a Igreja um sacramento... ou o Sacramento que prolonga a humanidade de Jesus. Por esta, na terra, o Filho de Deus exerce sua função de arauto da Boa-Nova e restaurador do homem ferido pelo pecado; por sua Igreja — Corpo de Cristo estendido através dos séculos — Cristo continua a sua missão redentora.
Por conseguinte, a Igreja não é algo de acidental no Cristianismo ou algo que possa ser recomeçado (como se recomeça um partido político); ela tem sua origem no mistério da Encarnação, central no Cristianismo, e, a seu modo, prolonga esse mistério. Cristo e a Igreja são, pois, inseparáveis um do outro. Não há cristão em sentido pleno que não seja membro de Cristo Cabeça do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Cristo não é apenas um mestre que tenha deixado uma mensagem a ser estudada e vivenciada em escolas fundadas por homens.

Pode-se, portanto, dizer: o não reconhecimento da Igreja decorre da ignorância — muito freqüente — do que seja a autêntica natureza do Cristianismo.

2.3. E as falhas?
Sem dúvida, existem falhas na Igreja, resultantes das limitações dos homens que a integram. Essas falhas, porém, não extinguem a ação santificadora de Cristo em favor dos membros fiéis da Igreja. Não há pecado humano que impeça Cristo de se dar aos seus no sacramento da Igreja. Ele prometeu aos Apóstolos antes de partir: "Estarei convosco até a consumação dos séculos" (Mt 28,20). Isto significa que Jesus garante sua ação vivificante à sociedade estruturada pelos Apóstolos e seus sucessores, independentemente da virtude desses homens; não é a santidade dos pastores que santifica os fiéis, mas é a santidade de Cristo, que quer passar pelas mãos dos pastores, sem ser diminuída por estes. É de notar que Jesus não disse: "Estarei com os mais santos e zelosos até o fim dos tempos"; se o tivesse dito, estaria condicionando a sua obra redentora à fidelidade dos ministros — o que deixaria inseguro o povo de Deus. Cristo quis, ao contrário, dar um sinal objetivo da sua indefectível ação santificadora; esse sinal é a sucessão apostólica, um fato histórico, que pode ser averiguado e comprovado por qualquer observador e que paira acima da oscilante virtude dos homens. Quem, pois, adere à sociedade fundada por Cristo e estruturada pela sucessão apostólica (a Igreja), pode ter a certeza de que entra em comunhão com Cristo, fonte de vida, independentemente da fidelidade ou infidelidade de seus irmãos.
São estas as principais razões pelas quais o Cristianismo é um Sacramento a ser vivido em comunidade, de modo a se excluir a "privatização da fé". Esta, a rigor, é uma aberração derivada da não compreensão do Evangelho e alimentada pelo subjetivismo reinante na sociedade contemporânea.

"Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir".


No Novo Testamento a loucura e o escândalo do desígnio de Deus se concretizaram na Cruz de Cristo, feita árvore da Vida. Entre os grandes mensageiros da Palavra de Cristo, destaca-se o Apóstolo São Paulo. Chamado por Deus para anunciar a Boa-Nova, sofreu longa série de provações, que o próprio Paulo enumera em 2Cor 11, 23-27: "Muitas vezes vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de estirpe, perigos por parte dos gentios... Mais ainda: fadigas e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez!". — Apesar de tudo, o Apóstolo, fazendo um retrospecto, escrevia no fim de sua vida: "Sei em quem acreditei" (2Tm 1,12). Sim; Paulo sabia que não colocara a sua fé num mero homem nem numa facção humana, mas a entregara a Cristo, que não havia de o decepcionar. Por isto, em meio às suas múltiplas dores, podia afirmar: "Estou cheio de consolo, transbordo de alegria em todas as nossas tribulações"(2Cor7,4).
 "Sei em quem acreditei..."; eis a fórmula cristã que dissipa a reação espontânea do Profeta: "Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir". (PRnº 377 - Editorial - out/93)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O MENDIGO QUE OUVIU A CONFISSÃO DO PAPA

Um sacerdote norte-americano da diocese de Nova Iorque se dispôs a rezar numa das paróquias de Roma quando, ao entrar, se encontrou com um mendigo. Depois de observá-lo por um momento, o sacerdote se deu conta de que conhecia aquele homem. Era um companheiro do seminário, ordenado sacerdote no mesmo dia que ele. Agora mendigava pelas ruas.
O padre, depois de identificar-se e saudá-lo, escutou dos lábios do mendigo como havia perdido sua fé e sua vocação. Ficou profundamente estremecido.
No dia seguinte o sacerdote chegado de Nova Iorque teria a oportunidade de assistir à Missa privada do Papa que lhe daria o direito de saudá-lo ao final da celebração, como é o costume. Ao chegar sua vez sentiu o impulso de ajoelhar-se diante do Santo Padre e pedir que rezasse por seu antigo companheiro de seminário, e descreveu brevemente a situação ao Papa.
Um dia depois recebeu o convite do Vaticano para almoçar com o Papa, o qual solicitava que levasse consigo o mendigo da paróquia. O sacerdote voltou à paróquia e comentou com o seu amigo o desejo do Papa. Depois de ter convencido o mendigo, levou-o à sua hospedagem, e lhe ofereceu roupa e a oportunidade de tomar banho.
Pontífice, depois do almoço, pediu ao sacerdote que os deixasse a sós, e pediu ao mendigo que escutasse sua confissão. O homem, impressionado, lhe respondeu que já não era sacerdote, ao que o Papa disse: ‘uma vez sacerdote, sacerdote sempre’. ‘Porém estou fora de minhas faculdades de presbítero’, insistiu o mendigo. ‘Eu sou o bispo de Roma, posso encarregar-me disso’, disse o Papa.
O homem escutou a confissão do Santo Padre e lhe pediu, por sua vez, que escutasse sua própria confissão. Depois disso chorou amargamente. Ao final João Paulo II lhe perguntou em que paróquia estava mendigando, e lhe designou assistente do pároco da mesma, e encarregado da atenção aos mendigos.

IMACULADA DESDE A CONCEPÇÃO!

                                                                                                            Dom Fernando Arêas Rifan*
        Amanhã celebraremos a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, ou seja, honramos o privilégio singular concedido por Deus à Virgem Maria, escolhida para a Mãe do Filho de Deus encarnado, preservando-a, desde a sua concepção, da herança do pecado original.
          Está aí uma luz dada pela Igreja sobre a vida intrauterina. Vida humana, respeitável, com direitos, querida por Deus, objeto do seu amor, desde o primeiro momento da concepção.

         “Vossos olhos contemplaram-me ainda em embrião” (Sl 139,16): essa é a citação bíblica escolhida por São João Paulo II para falar sobre o crime abominável do aborto: “o aborto provocado é a morte deliberada e direta... de um ser humano na fase inicial da sua existência, que vai da concepção ao nascimento... Trata-se de um homicídio... A pessoa eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar: nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um injusto agressor! É frágil, inerme, e numa medida tal que o deixa privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está totalmente entregue à proteção e aos cuidados daquela que o traz no seio... (Evangelium Vitae, 58).
        “Alguns tentam justificar o aborto, defendendo que o fruto da concepção, pelo menos até certo número de dias, não pode ainda ser considerado uma vida humana pessoal. Na realidade, porém, a partir do momento em que o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova vida que não é a do pai nem a da mãe, mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve por conta própria. Nunca mais se tornaria humana, se não o fosse já desde então. A essa evidência de sempre a ciência genética moderna fornece preciosas confirmações. Demonstrou que desde o primeiro instante, se encontra fixado o programa daquilo que será este ser vivo: uma pessoa, esta pessoa individual, com as suas notas características já bem determinadas. Desde a fecundação, tem início a aventura de uma vida humana, cujas grandes capacidades, já presentes cada uma delas, apenas exigem tempo para se organizar e se encontrar prontas para agir... O ser humano deve ser respeitado e tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento, lhe devem ser reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e primeiro de todos, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida”  (Evang. Vitae, 60).
        E a ciência moderna confirma essa posição da Igreja.  Dr. Jerôme Lejeune, cientista, professor da Universidade René Descartes, de Paris, e especialista em Genética Fundamental, descobridor da causa da síndrome de Down, em entrevista à VEJA, que lhe perguntou se, para ele, a vida começa a existir no momento da concepção, respondeu: “Não quero repetir o óbvio. Mas, na verdade, a vida começa na fecundação. Quando os 23 cromossomos masculinos transportados pelo espermatozoide se encontram com os 23 cromossomos da mulher, todos os dados genéticos que definem o novo ser humano já estão presentes. A fecundação é a marco do início da vida. Daí para frente, qualquer método artificial para destruí-la é um assassinato”.
                                                                 *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney