Sacerdotes Brasileiros reprovam Padres Cantores
Uma frase, atribuída a Santo Agostinho,
iluminou, desde a época dos Padres da Igreja, o papel da música nas atividades
eclesiais: “quem ama canta, e quem canta reza duas
vezes”.
Que música era, então, essa que, durante muito tempo, deu, aos fiéis e aos
gentios, público testemunho de sua fé? Tanto no Antigo Testamento quanto na
Igreja Primitiva, a música sacra, entendida como súplica e louvor, esteve
presente nas celebrações litúrgicas – Moisés cantou ao som dos tímpanos,
acompanhado pelo canto do povo (Ex 15,
1-20); Davi e “toda a casa de Israel dançavam diante
de Iahweh ao som de todos os instrumentos de madeira de cipreste, das cítaras,
das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos” (2Sm 6,
5). Nos primeiros tempos da Igreja de Roma, o canto dos Salmos já estava
presente nas assembleias dos cristãos, tendo por origem a música judaica,
especialmente a salmodia, praticada nas sinagogas. Sob o ponto de vista
cronológico seguiu-se o canto gregoriano, organizado por São Gregório Magno e
popularizado nos círculos católicos europeus entre os séculos VIII e IX, e,
mais tarde, nos séculos XV e XVI, a polifonia[1]. Em
inícios do século XX, o Papa São Pio X, por intermédio do Motu ProprioTra le Sollecitudini, publicado em 22 de novembro de 1903,
concedia novo esplendor ao canto gregoriano, enquadrando, naquele documento, o
papel da música sacra no âmbito dos ofícios religiosos. O Sumo Pontífice
enfatizou: “Uma
composição religiosa será tanto mais sacra e
litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia
gregoriana, e será tanto menos digna do templo quanto mais se afastar daquele
modelo supremo”.
Entre 1962 e 1965, na sequência da
convocação do Papa São João XXIII, o Concílio Vaticano II pretendeu renovar a
missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo,
nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas
Comunidades. No âmbito da popularização da música religiosa, no Brasil, logo em
inícios da década de 1960, “uma irmandade do interior de São
Paulo[,] as ‘Missionárias de Jesus Crucificado’[,] lançavam em 1963 o seu primeiro LP,
intitulado ‘Missionárias em LP’, com selo da própria irmandade, com músicas
compostas pelas próprias irmãs e feito sob encomenda pela Cia Industrial de
Discos no RJ”. Anos mais tarde, em 1967, o Padre José Fernandes
de Oliveira – o Padre Zezinho –, “depois de ter sido ordenado em 1966
nos EUA, vem para o Brasil e muda completamente a forma de se conduzir uma
missa, compondo e introduzindo instrumentos elétricos, atraindo multidões…
principalmente os jovens, pois falava a linguagem que os jovens da época
entendiam”. Mais recentemente, graças ao impulso dado pela
Renovação Carismática Católica, sem que se confundissem a música sacra, a
música popular religiosa e as variantes musicais, ao gosto das multidões, sob o
ponto de vista nominaldenominadas como católicas[2],
emergiu o primeiro dos muitos padres cantores com dimensão midiática: o Padre
Marcelo Rossi[3] que,
desde 1997, recorre ao canto, à dança e às coreografias em missas lotadas e
programas de televisão. Hoje em dia, os Padres Jonas Abib, Fábio de Melo,
Antônio Maria, Reginaldo Mazotti, Hewaldo Trevisan, Alessandro Campos, Marcos
Roberto Pires – o Padre Elvis –, assim como, até há pouco tempo, o ex-Padre
Zeca[4], de entre outros, atraem anualmente,
com seus espetáculos musicais que, por vezes, se aproximam daindústria cultural[5], no país e no estrangeiro, milhões de
espectadores. Por outro lado, as obras literárias destes sacerdotes, um misto
de popularização do Sagrado e um esforço de auto-ajuda, têm vindo a conquistar, de maneira crescente, a atenção das
editoras livreiras, tanto as católicas, quanto as estritamente comerciais.
A atividade dos chamados padres
cantores, ou padres artistas, captou o interesse das grandes produtoras
discográficas, mundiais e nacionais[6]. A mundanidade de algumas daquelas
vocações tem suscitado críticas por parte de sacerdotes brasileiros. Em 2010,
Dom Aldo Di Cillo Pagotto, Arcebispo da Paraíba, declarou: “Eu critico o ato de se fazer do
evangelho um show. Há tempos, a igreja tinha entrado em temáticas sociais e com
um viés um tanto esquerdista. De um tempo para cá, a igreja entrou nessa questão de padres cantores, artistas”. Dom Aldo adiantou ainda que, com
este tipo de prática, misto de religiosidade e de show multitudinário, “corremos o risco de ficar no
emotivo-show e no ‘oba-oba’. Como atrelar a emotividade? E depois? Esse ganho
de um compromisso sistemático, do itinerário de obras… a fé sem obras é morta”. Por seu turno, indo mais longe, Frei
Betto situou a problemática dos padres cantores no âmbito do processo mundial
de globalização. Deste modo, ele escreveu: “A globalização nada mais é do que a redução do mundo a um mercado, onde investem os donos
do capital e no qual a condição de cidadão importa menos que a de consumidor”. A Igreja light,
que tem, como representantes maiores, os Padres que transformam a fé em relação
mediada pelo divertimento, levou Frei Betto a referir que, atualmente, “nem a religião
escapa. Criada para elevar as pessoas a outro nível de consciência, para que
vivenciem a comunhão com Deus e entre si, e fundada em valores derivados de
revelação transcendente, aos poucos perde sua dimensão profética, de denúncia e
anúncio”. Afastada do plano dos deveres e
reduzida à esfera festival da existência, a Igreja, tal como é promovida pelos
astros da canção católica, “brilha sob as luzes da ribalta, trocando
o silêncio pela histeria pública, a meditação pela
emoção truncada, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o
produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na
constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades; a reflexão
bíblico-teológica; e o compromisso pastoral no serviço à justiça”. De acordo com Frei Betto, se Jesus
Cristo, em seus dias terrenos, “tivesse adotado estilo semelhante, […] não
teria sofrido perseguição, nem sido preso, torturado e assassinado na cruz. A
multidão teria clamado por ele, e não por Barrabás.
Na entrada de Jerusalém, o burrinho cederia lugar ao cavalo branco dos
imperadores”.
O Padre Leonardo Holtz Peixoto é um
sacerdote tradicionalista, membro da Fraternidade de São Pio X. Repudiando o
modernismo[7], dominante em círculos significativos
do clero brasileiro, ele escreveu, em janeiro de 2011, uma carta a Dom Orani
João Tempesta, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro. Nela, o Padre
Leonardo inquiriu: “Por que nossas paróquias e santuários
estão repletos de fiéis nas missas (especialmente nas missas-show), mas as
pastorais estão vazias? Por que nossos fiéis não sabem mais o catecismo? Por que as quadras de samba e as praias estão muito mais bem
frequentadas do que nossas paróquias? Creio que muitos saibam as respostas
dessas perguntas, mas muito poucos tem a CORAGEM de admitir, pois é muito mais
confortável colocar remendos do que derrubar tudo e
reconstruir”. Prosseguindo sua missiva, em tom
duro, o Padre Leonardo, contrapondo sua opção vital e religiosa aos vícios
presentes na prática de membros do sacerdócio, desde oaggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II[8],
assinala: “Hoje temos de tudo: padres cantores,
psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES! Encontramos
padres em todos os ambientes hoje, mas, se bobearmos,
só não os achamos nas paróquias. Soube que existe um padre que não rezava a
Missa da primeira sexta-feira do mês em sua paróquia; as senhoras do Apostolado
da Oração para obrigá-lo a rezar a Missa, fazem uma ‘vaquinha’ todo mês e lhe dão uma espórtula*. Isso porque ele afirma que
só celebra durante a semana se houver intenções marcadas. Mas, mediante uma
espórtula*, abre-se uma exceção”.
Em 12 de Abril de 2014, véspera de
Domingo de Ramos, o Padre Fábio de Melo participou no programa televisivo
“Altas Horas”, da TV Globo. A Associação dos Devotos de Fátima, com sede em São
Paulo, indignada com o fato de o sacerdote se ter apresentado sem estar
paramentado, em plena Quaresma, manifestou sua indignação nos seguintes termos:
“Enquanto ele se apresentava na
madrugada de sábado, em Roma o Papa Francisco preparava-se para celebrar a
Missa do Domingo de Ramos e dar início às cerimônias da Semana Santa que
precedem a Páscoa”. Deste modo, segundo a Associação,
não “é normal ver um padre exercendo seu
papel sacerdotal sem as devidas preocupações com seus votos e com sua imagem
que deve ser, antes de tudo, a imagem da Santa Igreja”. Na sequência, em abaixo-assinado
dirigido à hierarquia católica, no qual se pedia o “direcionamento”
dos padres cantores, a Associação dos Devotos de Fátima salientou: “Com frequência temos que lutar com a
perplexidade de ver esses religiosos participando de programas totalmente
inadequados, tanto para sua condição quanto para o bom exemplo e formação
espiritual dos fiéis”. Por outro lado, em 18 de
agosto de 2015, o Cardeal Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Emérito de Brasília
e atual Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica, em visita ao Instituto das Pequenas Missionárias
de Maria Imaculada, situado em São José dos Campos (SP), teve a oportunidade de
se referir aos padres cantores. Em entrevista ao G1, sem citar nomes, ele teceu as
seguintes considerações: “Nem
tudo nos nossos padres cantores está claro, basta olhar. É preciso voltar ao
essencial, questionar o porque se está ali cantando aquela música na televisão.
Qual a razão que me faz estar aqui? É Jesus Cristo? Minha fama? O dinheiro?”. Prosseguindo, Dom Braz de Aviz
sublinhou que “não
é bom deixar estragar tudo para depois mexer. Eu não cito
nomes, mas tem coisas chatas aí”. Em contrapartida, o prelado, que é
grande admirador da obra do Padre Zezinho, considerou o fato de que aquele
sacerdote “não
se apegou à imagem e ao dinheiro. O que sobressai nele é Jesus Cristo. Se o que
conta é o dinheiro, a fama e o poder, mesmo que você tenha uma bela voz e fale
bonito, está errado”. Ao terminar a entrevista, o Cardeal
se referiu ao celibato dos consagrados mas, implicitamente, também ao primado
dos valores práticos e hedonísticos em detrimento do primado da espiritualidade
entre alguns dos religiosos do país: “Precisamos
pautar nossa vida em um testemunho simples e direto, convicto. Se uma pessoa
consagrada vive infeliz e carrancuda, pode ir para
outro lado, buscar outro caminho ou ela deve mudar”[9].
Os caminhos, por vezes transviados, de
determinados membros da Igreja Católica, percorridos contemporaneamente em
práticas que indicam a ostentação materialista, nos levam a relembrar a
validade da recomendação feita por S. Paulo em sua Epístola aos Efésios: “Falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando
e louvando ao Senhor em vosso coração” (Ef 5,
19). Em 1985, advertindo os católicos para os tempos que, já naquela época, se
intuíam em sua plenitude, o então Cardeal Dom Joseph Ratzinger – o futuro Papa
Emérito Bento XVI –, em diálogo mantido com Vittorio Messori, estabeleceu um
divisor de águas entre a espiritualidade e o entendimento da fé como teatro do mundo. Ratzinger foi peremptório: “A
liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de
atores de talento. A liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções
‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu
efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e
disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade, para ser realmente
sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia
espetacular, de entretenimento”, à semelhança dos êxitos musicais feitos para conquistar espectadores
e mercados[10]. Com efeito, se cada um de nós – e também os padres
cantores – pode fazer tudo aquilo que quer, convém ter presente aquilo que, em
cada momento de nossas vidas, nós devemos fazer. No caso específico dos
sacerdotes, que devem constituir fontes irradiadoras de espiritualidade, isto
é tanto mais relevante. Por isso, “a Prudência ensina a cuidar tanto, ou
mais, no que se deve omitir, como no que se há-de dizer”[11] e
se há-de levar a cabo.
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* Gratificação
em dinheiro, gorjeta, esmola.
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Imagem “Padre Alessandro Campos, um dos
ícones dos padres cantores brasileiros” (Fonte):
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Fontes
Bibliográficas:
[1] Na Carta Encíclica Musicæ Sacræ Disciplina (1955), o Papa Pio
XII anotou: “A Igreja também teve sempre em grande
honra este canto polifônico, e de bom grado admitiu-o para maior decoro dos
ritos sagrados nas próprias basílicas romanas e nas cerimônias pontifícias. Com
isso se lhe aumentaram a eficácia e o esplendor, porque à voz dos cantores se
aditou, além do órgão, o som de outros instrumentos musicais”.
[2] Pio XII, em 1955,
encarando as práticas religiosas como uma disposição e uma realidade
holísticas, adianta, relativamente à música de índole religiosa, executada fora
das igrejas: “Em grande estima se deve ter também a
música que, embora não sendo destinada principalmente ao serviço da sagrada
liturgia, todavia, pelo seu conteúdo e pelas suas finalidades, importa muitas
vantagens à religião, e por isso com toda razão é chamada música ‘religiosa’.
Na verdade, também este gênero de música sacra – que teve origem no seio da
Igreja, e que sob os auspícios desta pôde felizmente desenvolver-se está, como
o demonstra a experiência, no caso de exercer nas almas dos fiéis uma grande e
salutar influência, quer seja usada nas igrejas durante as funções e as
sagradas cerimônias não-litúrgicas, quer fora de igreja, nas várias solenidades
e celebrações. De fato, as melodias desses cantos, compostos as mais das vezes
em língua vulgar, fixam-se na memória quase sem esforço e sem trabalho, e, ao
mesmo tempo também, as palavras e os conceitos se imprimem na mente, são
frequentemente repetidos e mais profundamente compreendidos”.
[3] Estabelecendo as
analogias e as diferenças entre as práticas do Padre Marcelo Rossi e do Bispo
Edir Macedo, Fernando de Barros e Silva escreveu, no jornal Folha de S. Paulo: “O padre Marcelo
Rossi é uma versão light, asséptica, socialmente aceitável e esteticamente
palatável da Igreja Universal; o transe coletivo que ele mobiliza é por assim
dizer epidérmico, se resolve com musiquinhas infantis e coreografias de
auditório; não há, como no caso da Universal, demônio para ser enfrentado, não
há necessidade de provação nem praticamente introspecção por parte dos fiéis
engajados na sua fé aeróbica. As freirinhas que pulavam histéricas no Terço
Bizantino são algo como a versão Disneylândia dos pastores com ar de capangas
da fé da Igreja Universal”.
[4] Ver:
Isabel de Luca, “Zeca de Mello, Confissões de Um Ex-padre que se Reinventa Seis Anos Após
Deixar a Batina”, O Globo, Rio de Janeiro,
11.08.2013.
Disponível online, em:
[5] De acordo com o
teólogo Leonardo Boff, o “padre Marcelo Rossi está imitando as
[igrejas] pentecostais. Há um vazio de evangelização, é a relação pessoa e
Deus. É melhor escutar o padre Rossi do que escutar a Xuxa, mas é a mesma
coisa. Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação.
É um Lexotan. Depois volta a lógica dura da vida. É uma evangelização
desgarrada da vida concreta.”, LEOPOLDO MATEUS, “Leonardo Boff: ‘João Paulo II e Bento XVI Afastaram a Igreja do Mundo’”, Época, São Paulo, 18.09.2010.
Disponível online, em:
[6] São de referir, a
título de exemplo, as seguintes gravadoras globais que mantêm, ou mantiveram,
contratos com padres cantores: Canção Nova (Fábio de Melo); Comunidade Canção Nova (Jonas Abib); LGK Music (Fábio de Melo); Paulinas – COMEP (Fábio de Melo; Jonas Abib; Padre
Zezinho); Som Livre (Alessandro Campos;
Fábio de Melo; Reginaldo Manzotti); Sony Music (Fábio de Melo;
Marcelo Rossi); Universal Music (Marcelo Rossi).
[7] Em 1907, o Santo
Papa Pio X, no Decreto Lamentabili Sane Exitu e na Carta
Encíclica Pascendi Dominici Gregis,
condenou o modernismo, tendo tornado obrigatório, para todos os membros do
Clero, Pastores, Confessores, Pregadores, Superiores religiosos e Professores
em Seminários de filosofia e teologia, o Juramento Anti-Modernista.
O Juramento seria revogado em 1967, pelo Papa Paulo VI, que considerava o
conceito de modernismo ambíguo, podendo se confundir com o modernismo,
utilizado em sentido estético. Deste modo, a partir da decisão tomada por
aquele Pontífice, o modernismo ficou restrito aos católicos tradicionalistas,
passando os erros modernistas a ser referidos por seus próprios nomes:
secularismo, laicismo, liberalismo, relativismo, subjetivismo e cientificismo.
[8] Referindo sua
oposição às disposições do Concílio Vaticano II, o Padre Leonardo Holtz Peixoto
escreve: “Como católico, eu não estou obrigado
a aceitar o Concílio Vaticano II, uma vez que este foi um concílio pastoral e
não um concílio dogmático”. Quanto ao rito da missa nova, seguido pelos Padres pós-conciliares, o Padre
Leonardo manifesta deste modo sua rejeição total: “Quanto à Missa, não nego a validade
da nova missa, contudo afirmo que ela é ambígua e não expressa, como a de S.
Pio V, os principais dogmas católicos. Confesso que celebro com muita
relutância a missa segundo o Novus Ordo (de Paulo VI). Não posso aceitar o
ofertório do Novus Ordo que é uma berakah judaica. É claramente uma ceia e não
um sacrifício! Há muito tempo que eu o substituo pelo Ofertório Tradicional.
Faço esta e outras modificações para que a missa nova seja o mais suportável
possível para mim e possa expressar o mais possível os nossos dogmas de fé.
Contudo isso me incomoda muitíssimo, pois sei que não tenho a graça de estado
para modificar um rito”.
[9] Ilustram a desorientação das vocações de alguns religiosos
brasileiros as declarações que passamos a referir:
Dalcides Biscalquin, um ex-padre
cantor ligado à Canção Nova, em entrevista a Gabriel Chalita, conta com
naturalidade como decidiu abandonar “a vida eclesiástica para viver um
grande amor, um amor divinamente humano”. Para o ex-salesiano, “não era possível para mim repousar
somente nos braços do sagrado, negando meu lado humano”.
Zeca de Mello, o ex-padre Zeca,
confessa, em sua primeira entrevista após ter deixado o sacerdócio: “A gente se apaixonou – confessa. – Mas nunca deixaria o ministério por uma
mulher. Quando a gente se conheceu eu já estava em crise. Sempre pensei que, se
deixasse o ministério, essa responsabilidade deveria ser só minha. Então a vida
nos separou, e só fui reencontrá-la anos depois: ela tinha terminado um
relacionamento; eu não era mais padre e tinha acabado um namoro também (ele
diz que teve ‘algumas namoradas, uma mais séria’, depois de largar a
batina)”. Entrementes, evocando os tempos relativos à frequência do
curso de Crisma, Zeca de Mello adiantou: “Achava missa uma coisa chata, uma
celebração muito distante”.
[10] “Muitos compositores da música popular compõem primeiro a música e depois
a letra. Para quem coloca em primeiro plano a letra, como no canto gregoriano,
é impensável compor antes a música e depois a letra. Seria colocar o carro à
frente dos bois. O primeiro plano para o compositor gregoriano
é a letra, a Palavra de Deus, e não pode ser diferente; a música
vem em segundo plano; ela nasce do texto e de sua prosódia. A forma da música e
a sua estrutura são o resultado da forma e da estrutura do texto: o
texto inspira a música. O mesmo se diga de qualquer outra peça de canto
atual destinado à liturgia. O compositor de música litúrgica sente-se inspirado
quando tem diante dos olhos um bom texto baseado na Bíblia: lendo o texto, o
compositor já vai planejando a parte musical. Pois, na liturgia, a música é
inspirada na Palavra de Deus. A música é servidora da Palavra à
semelhança do canto gregoriano.”, JOSÉ W. WEBER, Introdução ao Canto Gregoriano, São Paulo,
Paulus, 2013, págs. 19-20.
[11] UM RELIGIOSO DA
ORDEM TERCEIRA [FREI MANUEL DO CENÁCULO], Memórias Históricas do Ministério do Púlpito, Lisboa, Na Régia
Oficina Tipográfica, 1776, pág. 264.
(FONTE: Ceiri Newspaper)
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