Céu e terra passarão, mas o que Deus
fez por cada um de nós na Páscoa de Cristo jamais passará
Celebrar a Páscoa neste Ano Jubilar da
Misericórdia significa celebrar um milagre. É o que sugere Santo Agostinho
quando, comentando a passagem do Evangelho que diz: "Fareis obras maiores
do que estas" (Jo 14, 12), diz que salvar
um pecador é obra maior do que criar o céu e a terra (cf.Tratados
sobre o Evangelho de São João, 72, 3).
A frase é surpreendente, mas é
verdadeira. Porque o universo foi criado do nada (ex
nihilo),
mas o ser humano, pelo pecado, ficou abaixo do
próprio nada. Porque o universo recebeu a existência, mas o
homem, quando é justificado, entra na
felicidade do próprio Deus. Porque os céus e a terra passarão, mas a glória
dos justos no Céu jamais passará.
Cada vez que um pecador se aproxima do
confessionário, portanto, os nossos olhos da carne não enxergam, mas Deus opera
um milagre maior do que a criação de todo o universo, resgatando quem era menos
do que nada e enriquecendo-o com o bem da graça, que é melhor do que o bem da
natureza (cf. Suma
Teológica, I-II, q. 113, a. 9, ad 2).
Por isso, não
deixe passar esta solenidade sem receber o perdão dos pecados, pela Confissão
sacramental, e sem anunciar aos que estão à sua volta o grande
milagre da misericórdia divina. Só assim o Aleluia que cantamos na
Vigília Pascal poderá ser repetido eternamente no Céu.
Uma
feliz e santa Páscoa para você e toda a sua família!
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Segundo o atual prefeito da
Congregação para o Culto Divino, sim. “O silêncio é uma condição necessária
para o aprofundamento, para a oração contemplativa, além de um importante
componente da Liturgia”, diz o Cardeal Robert Sarah.
Ainda há espaço para o silêncio na
Santa Missa? Segundo o atual prefeito da Congregação para o Culto Divino, sim.
Em uma coluna para o L'Osservatore
Romano, o Cardeal Robert Sarah exortou os fiéis católicos a
buscarem o recolhimento interior durante a Celebração Eucarística, como
condição para que Deus manifeste "sua presença em nossas almas,
irrigando-as com seu amor trinitário"."Nós
deveríamos evitar transformar a Igreja, que é a Casa de Deus destinada à
adoração, em um teatro ao qual as pessoas vêm para aplaudir os atores", insistiu o prelado.
O ensinamento do Cardeal Sarah não é
novidade. A necessidade de silêncio na Santa Missa já foi tema de inúmeras
deliberações por parte de liturgistas bastante competentes. Todavia, como
prefeito de um dos mais importantes dicastérios da Cúria Romana — precisamente
aquele que tem a função de cuidar dos Sacramentos da Igreja —, o Cardeal Robert
Sarah tem uma autoridade singular neste debate. Porque precisa agir em harmonia
com a vontade do Santo Padre, quem, aliás, o apontou para exercer o cargo que
ocupa, ele não expressa somente a voz de uma opinião isolada, mas a
interpretação verdadeiramente autorizada do Magistério, especialmente quando
trata da velha celeuma quanto à correta aplicação do Missal de Paulo VI — uma questão, apesar
de já exaustivamente debatida, ainda hoje espinhosa. Logo, suas declarações são
algo que muito deve nos interessar.
Mas, para compreender o problema abordado, é
preciso, antes de tudo, retroceder alguns anos no tempo.
No período anterior à reforma litúrgica
do Beato Paulo VI, quando ainda se celebrava a Missa de São Pio V, iniciou-se
um intenso movimento de renovação para que, entre outras coisas, os fiéis
leigos participassem do "santo sacrifício eucarístico, não com assistência
passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor" que os
colocassem "em contato íntimo com o sumo sacerdote", o Senhor Jesus
[1]. Veio de Pio XII o impulso oficial para tal renovação. Com a encíclicaMediator
Dei,
o Santo Padre esclareceu o modo pelo qual os fiéis também oferecem o sacrifício
eucarístico, embora seja de maneira inferior à do sacerdote, que, por fazer as
vezes de Cristo na Terra, é a cabeça de todos os membros da Igreja "e se
oferece a si mesmo por eles" (n. 76):
A imolação incruenta por meio da qual, depois que foram pronunciadas as
palavras da consagração, Cristo está presente no altar no estado de vítima, é
realizada só pelo sacerdote enquanto representa a pessoa de Cristo e não
enquanto representa a pessoa dos fiéis. Colocando, porém, no altar a vítima
divina, o sacerdote a apresenta a Deus Pai como oblação à glória da SS.
Trindade e para o bem de todas as almas. Dessa oblação propriamente dita os
fiéis participam do modo que lhes é possível e por um duplo motivo: porque
oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do sacerdote, mas, de certo modo
ainda, junto com ele; e ainda porque com essa participação também a oferta
feita pelo povo pertence ao culto litúrgico. Que os fiéis oferecem o sacrifício
por meio do sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de
Cristo enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que, em
bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, realiza a oblação da
vítima. Quando, pois, se diz que o povo oferece
juntamente com o sacerdote, não se afirma que os membros da Igreja de maneira
idêntica à do próprio sacerdote realizam o rito litúrgico visível — o que
pertence somente ao ministro de Deus para isso designado — mas sim que une os
seus votos de louvor, de impetração, de expiação e a sua ação de graças à
intenção do sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam apresentados
a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com o rito externo do sacerdote
(n. 83). (negritos nossos).
Nas pegadas de Pio XII, o Concílio
Vaticano II introduziu o conceito de "participação ativa" na
celebração dos mistérios sagrados, determinando, por meio da Constituição
Conciliar Sacrosanctum Concilium que, na ação
litúrgica, os "pastores de almas" nó só zelassem pela observância das
"leis que regulam a celebração válida e lícita", mas também para que
os fiéis participassem nela "consciente, ativa e frutuosamente" (n.
11). Para o bem espiritual da grei de Cristo, sem dúvida, tratava-se de algo
necessário. Se na Missa presenciamos o sacrifício de Jesus na cruz, por meio do
qual a ação divina operou o Mistério da Salvação, é fundamental que os fiéis
vivenciem esse momento com profundidade mística e ascese eficaz; não como meros
ouvintes, mas como praticantes da Palavra (cf. Tg 1, 22).
Acontece que, no período pós-conciliar, essa
"participação ativa" acabou desvirtuada de seu sentido original e —
por causa de algumas teologias de sabor protestante — uma excessiva
"autonomia" desenvolveu-se nas celebrações, ao mesmo tempo em que se
passava a desprezar o Missal antigo, às vezes até com certo fanatismo e
intolerância. Do lado oposto, por sua vez, enquanto alguns se opuseram à
reforma com igual agressividade, "muitas pessoas, que aceitavam claramente
o caráter vinculante do Concílio Vaticano II e que eram fiéis ao Papa e aos
Bispos, desejavam contudo reaver também a forma, que lhes era cara, da sagrada
Liturgia" [2]. Isso ocorreu porque, como explicou amiúde Bento XVI,
"em muitos lugares, se celebrava não se atendo de maneira fiel às
prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até
obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia
no limite do suportável" [3].
Ao longo dos últimos anos, a Igreja
procurou resolver tais problemas por meio de várias determinações e ações
pastorais [4]. De maneira geral, o que se pretendeu inculcar na mentalidade dos
fiéis é que, embora haja elementos litúrgicos "próprios do passado",
os quais podem — e, por vezes, devem — ser mudados [5], "aquilo
que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também
para nós". Com efeito, "faz-nos bem a todos conservar
as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo
lugar" [6].
É dentro dessa perspectiva que se
insere o artigo do Cardeal Robert Sarah e toda sua defesa do que ele chama de
"silêncio místico". Esse silêncio faz parte do grande patrimônio da
espiritualidade cristã que deve ser conservado como elemento imprescindível à
comunhão com Deus. A Liturgia, diz o Concílio, precisa contribuir "para
que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a
autêntica natureza da verdadeira Igreja" ( Sacrosanctum
Concilium,
n. 2). A "participação
ativa", portanto, não significa um cartão verde a todo tipo de inovações e
pantomimas dentro da Celebração Eucarística, mas uma atitude interior, de
oração propriamente dita, que é a de deixar-se conduzir pela ação de Deus, cuja
voz se escuta somente no "murmúrio de uma brisa ligeira" (1 Rs 19,
12). Com essa entrega pessoal, o fiel pode ofertar-se
verdadeiramente no sacrifício eucarístico, como descreveu Pio XII. Doutro modo,
porém, a atividade pela atividade não resolve o problema levantado pelo
Movimento Litúrgico; apenas aumenta a quantidade de gestos exteriores. Ademais,
não é sem propósito que a exortação dos padres conciliares à observância do
silêncio na Missa esteja justamente no parágrafo sobre a "participação
ativa" (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 30).
Na linha da grande tradição dos Padres
da Igreja e dos santos, que sempre entenderam "o silêncio como condição
para a oração contemplativa", e fundamentado pelas mesmas indicações do
Antigo e do Novo Testamento, o Cardeal Robert Sarah explica que o "silêncio
virtuoso" nada tem que ver com "ociosidade" ou
"omissão", comportamentos gerados pelos vícios da covardia, do
egoísmo e da dureza do coração. O silêncio virtuoso, ensina, refere-se àquela
atitude em que a pessoa deseja "dar espaço aos outros, e especialmente ao
Outro absoluto, Deus". É a atitude de Maria — que guardava tudo no coração
(cf. Lc 2, 20) — e de José — do qual não se
ouve sequer uma palavra durante toda a Escritura. "Em contraste",
compara o Prefeito para o Culto Divino, o barulho
exterior do tagarela "caracteriza o indivíduo que quer ocupar um lugar
mais importante, para empavonar-se ou mostrar-se, ou ainda que deseja preencher
seu vazio interior". Ele faz tudo, exceto oração.
"Se
nosso 'celular interior' está sempre ocupado porque estamos 'conversando' com
outras criaturas, como pode Deus nos alcançar, como Ele pode 'nos ligar'?", questiona o
cardeal. Assim, ele conclui, "nós devemos purificar nossas mentes de suas curiosidades,
do desejo de seus projetos, a fim de que nos abramos totalmente às graças e à
força que Deus quer nos conceder profusamente".
A Instrução Geral do Missal Romano, recorda o Cardeal
Sarah, indica os lugares onde se deve fazer silêncio na Missa:
Também se deve guardar, nos momentos próprios, o silêncio sagrado, como
parte da celebração. A natureza deste silêncio depende do momento em que ele é
observado no decurso da celebração. Assim, no ato penitencial e a seguir ao
convite à oração, o silêncio destina-se ao recolhimento interior; a seguir às
leituras ou à homilia, é para uma breve meditação sobre o que se ouviu; depois da
Comunhão, favorece a oração interior de louvor e ação de graças.
Antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se preparem para celebrar devota e dignamente os ritos sagrados (n. 45). (negritos nossos).
Antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se preparem para celebrar devota e dignamente os ritos sagrados (n. 45). (negritos nossos).
Certamente, o ato de silenciar-se não é
fácil e requer, como tudo que está relacionado à vida interior, uma "ação violenta" do indivíduo no
caminho da ascese — aliás, "um meio indispensável", como explica o
Cardeal Sarah, "para nos ajudar a remover de nossa vida qualquer coisa que
nos arraste para baixo, em outras palavras, qualquer coisa que dificulte nossa
vida espiritual ou interior e, portanto, um obstáculo à oração". A grande
dificuldade para os fiéis cristãos de hoje, porém, é que se perdeu, sob muitos
aspectos, essa noção de vida ascética. Por isso, tudo parece tão assustador e
fora da realidade. Mas, já nos está claro, engana-se quem considera ser
possível escutar a Palavra de Deus e colocá-la em prática sem o devido
recolhimento interior. E não é preciso nenhum artigo de cardeal para nos
convencer disso. Bastam as palavras de São Tiago: "Se alguém pensa ser piedoso,
mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo: vã é a sua religião" (Tg 1, 26).
Por Equipe Christo Nihil
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Referências
2.
Papa Bento XVI, Carta aos bispos que acompanha o
"Motu Proprio" Summorum Pontificum (7 de julho de
2007).
3.
Idem.
4.
Cf. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de
Eucharistia (17 de abril de 2003); Congregação para o Culto Divino..., Instrução Redemptionis
Sacramentum (25 de março de 2004); Papa Bento XVI, Motu
Proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007).
6.
Papa Bento XVI, Carta aos bispos que acompanha o
"Motu Proprio" Summorum Pontificum (7 de julho de
2007).
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