domingo, 13 de outubro de 2013

Imagem de Fátima vai ao Vaticano

Papa consagra o mundo a Maria

Sexta-Feira, 11 Outubro 2013
Não é ato único, nem original. Aliás, João Paulo II já o tinha feito, e antes dele outros Papas. No entanto, não deixa de se revestir de significado que o Papa Francisco (seguindo o pedido já feito por Bento XVI), ao querer reforçar o voto de consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, peça a presença da imagem de Nossa Senhora de Fátima, como João Paulo II antes de si o tinha feito. É mais uma prova da importância da Virgem da Cova da Iria para a Igreja Católica em todo o mundo.
A pedido do Papa Francisco, a imagem de Fátima vai viajar até ao Vaticano para que o Papa possa, durante as Jornadas Marianas que acontecem no âmbito do Ano da Fé, proceder à consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Este desejo de contar com a imagem de Nossa Senhora de Fátima já tinha sido manifestado por Bento XVI ao bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, e foi agora confirmado pelo Papa Francisco, que é um devoto de Maria, à semelhança dos Papas anteriores. Não deixa de ser curiosa a importância que Fátima adquiriu para a Igreja Universal. O Pe. Jacinto Farias, sacerdote dehoniano e professor de Teologia na Universidade Católica Portuguesa, refere que a história do santuário e a sua ligação com o resto do mundo são muito fortes devido à mensagem que Nossa senhora de Fátima transmitiu aos pastorinhos. «De todas as mensagens de aparições da Virgem, a mensagem mais forte é de Fátima. É uma mensagem de conversão que chama a atenção para a escatologia, para o final dos tempos, e para as perseguições à Igreja e ao mundo, porque é toda a humanidade que é vítima», diz o sacerdote. O Papa Francisco confirmou esta ligação à Cova da Iria com o pedido, que poderia ter sido feito a qualquer outro santuário mariano no mundo, como Lourdes ou a Guadalupe, mais antigos até que Fátima, de que fosse esta a imagem a estar presente para a consagração.
A razão por todo este "enamoramento" de Fátima tem a ver com a expressão das aparições. Não há, em Lourdes, em Guadalupe, ou noutro santuário cujas aparições estejam aprovadas pelo Vaticano, uma mensagem tão clara dirigida a todo o povo de Deus, e não apenas a quem presenciou as visões. Apesar do milagre do Sol, ou dos segredos proféticos que a Virgem passou aos pastorinhos, e que serviram para dar credibilidade às aparições, Fátima vale pela mensagem de conversão e pelo desafio que lança a todos os cristãos, e que 96 anos depois se mantém atual. «O Papa quer renovar a consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria, que foi um pedido que a Lúcia fez, e estas consagrações são frequentemente repetidas, porque ele acredita num realismo da mensagem. Estamos a viver um clima de apocalipse, com a guerra e o aborto, que impede que milhares de crianças possam nascer. O caminho para a Paz é feito de oração, sacrifício e conversão, através da oração do Terço e da conversão dos corações, tudo coisas simples feitas por pessoas simples. Não são os governantes que decidem se há paz ou não, eles apenas decidem se atacam ou não. O Papa convoca a Imagem de Fátima pela pertinência e força que esta palavra tem e que ao mesmo tempo todos entendem», afirma o Pe. Jacinto Farias.
Os responsáveis da Igreja sempre levaram a sério estas aparições, apesar da dureza dos interrogatórios a que foram sujeitos os pastorinhos nos tempos que se seguiram às aparições. Aliás, foi essa inflexibilidade e coerência no discurso dos três pastorinhos que ajudou a consolidar a noção de que as aparições eram reais.
Assim, Francisco, como João Paulo II o fez, apoia-se nas aparições que mais dizem respeito a todos e com as quais mais se podem identificar para dar importância a esta consagração. O próprio João Paulo II escolhe Fátima para consagrar o mundo ao Imaculado Coração de Maria, e é à Virgem da Cova da Iria que entrega a bala que o alvejou, num gesto simbólico mas expressivo da devoção que o antigo Papa tinha pela Virgem de Fátima.
A devoção no mundo à Senhora de Fátima
Não é muito usual que a imagem da Virgem saia da Capelinha das Aparições. De facto, em 96 anos, será apenas a 12.ª vez que a imagem, da autoria do escultor José Ferreira Thedim, sairá do nicho em que foi colocada. Se considerarmos ainda que metade destas saídas aconteceram logo nas primeiras décadas, até 1959, conseguimos perceber que, nos últimos anos, a imagem só sai da Capelinha das Aparições por motivos bastante específicos.
Para tudo o resto existem cópias desta imagem, as imagens peregrinas, que percorrem todo o mundo a pedido de paróquias, dioceses, movimentos e comunidades, mantendo a devoção a Nossa Senhora bem acesa em todo o mundo. Aliás, esta é uma das razões para o sucesso de Fátima: a sua internacionalização, e o facto de chegar a tanta gente que vive tão longe e não se pode deslocar ao santuário.
De todo o lado chegam ao santuário histórias e relatos de conversões e milagres atribuídos à presença da Imagem Peregrina, o que também ajuda a fortalecer a devoção dos peregrinos a Fátima. Se juntarmos todas as pessoas que são visitadas pelas imagens Peregrinas aos cerca de 5 milhões que todos os anos visitam o santuário em pessoa, é possível perceber a importância deste santuário não só para a Igreja portuguesa, como para a Igreja Católica universal.
Essa foi uma das razões pela qual João Paulo II, em 1984, consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria, de joelhos em frente da imagem de Nossa Senhora de Fátima. «Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no Vosso Coração materno. Oh, Coração Imaculado! Ajudai-nos a vencer a ameaça do mal que tão facilmente se enraíza nos corações dos homens de hoje e que, nos seus efeitos incomensuráveis, pesa já sobre a nossa época e parece fechar os caminhos do futuro!», disse na altura o então Papa João Paulo II.
Desconhece-se ainda o conteúdo da consagração do Papa Francisco, mas o presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, D. Rino Fisichella, fez questão de afirmar, na sua carta ao bispo de Leiria-Fátima, que era desejo expresso do Papa contar com a presença de Nossa Senhora de Fátima. «É um desejo vivo do Santo Padre que a Jornada Mariana possa ter como especial sinal um dos ícones marianos entre os mais significativos para os cristãos em todo o mundo e, por esse motivo, pensámos na amada estátua original de Nossa Senhora de Fátima», podia ler-se na comunicação apresentada aos jornalistas. D. António Marto aceitou o pedido do Papa Francisco, até porque «ao Santo Padre não se pode dizer que não», adiantando ainda que este pedido para a presença da imagem de Nossa Senhora de Fátima em Roma já tinha sido feito muitos meses antes pelo então Papa Bento XVI.
Conversão dos corações
Francisco tem tido um pontificado muito virado para a atualidade do mundo e para a pastoral da proximidade. Além disso, é um devoto de Maria, e teve já vários atos públicos que demonstram a importância do culto mariano para o atual Papa. No segundo dia de pontificado, foi à Igreja de Santa Maria Maior, centro do culto mariano em Roma, para oferecer a sua eleição. Depois, na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, fez questão de ir ao Santuário da Senhora da Aparecida, e até anunciou, para surpresa de todos, que iria lá estar em 2017, na celebração dos 300 anos do santuário. A ternura, aliás, com que trata todas as crianças e idosos com quem se cruza tem "o dedo" de Maria, e por isso não estranha que queira também ele proceder à consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. A mensagem deverá estar centrada na necessidade de conversão dos corações e na importância da oração neste mundo que está a perder as referências, como o Papa tanto tem falado nestes últimos tempos. Além disso, os apelos à paz deverão fazer parte do ato de consagração, já que a realidade dos conflitos na Síria tem merecido uma atenção constante do Santo Padre.
A estátua irá deixar o santuário no dia 12 e regressará ao seu lugar na Capelinha no dia 13, logo após a consagração do Papa Francisco. Entretanto, ficará no seu lugar em Fátima a primeira das imagens peregrinas, que já não sai e está sempre na Basílica de Nossa Senhora. Essa será a imagem que estará presente na peregrinação aniversária de outubro, que será presidida pelo Card. Bertone, secretário de Estado do Vaticano, que fará em Fátima um dos seus últimos atos públicos como secretário de Estado do Vaticano, já que será substituído oficialmente no dia 15 de outubro por D. Pietro Parolin. O ato de enviar a Fátima o seu secretário de Estado não é inocente da parte de Francisco. O Card. Bertone, enquanto colaborador de Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, participou ativamente na divulgação do terceiro segredo de Fátima, tendo até um livro editado sobre os seus encontros com a Ir. Lúcia. Será, por certo, um último ato público que o Card. Bertone desempenhará com gosto, e que revela a atenção do Papa Francisco a estes pormenores, pois, apesar de já ter anunciado o seu sucessor, permitiu que fosse o Card. Bertone a vir a Fátima presidir à peregrinação ao marcar a tomada de posse do novo secretário de Estado do Vaticano apenas para depois desta data. Depois, revela também a intenção do Papa de ligar o Vaticano ao Santuário de Fátima e à celebração da peregrinação aniversária.
O mundo católico, em particular o mundo mariano, aguarda com expectativa estas Jornadas Marianas.
Ricardo Perna
Publicado em Igreja

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